quarta-feira, 13 de julho de 2011

A história de um aspirante ao posto de estátua

Foi publicado na época no site da revista Paiuí: A história de um aspirante ao posto de estátua




“Ps. espero desta vez receber algum retorno, pois é a décima carta que mando só esta semana”. Com sua caneta no fim da tinta, tem que riscar várias vezes para traçar as letras. Sentado em sua escrivaninha de madeira infestada por cupins, admira o papel várias vezes para checar se tudo estava de acordo. Todo o dia ia ao correio depositar a carta pontualmente às dez da manhã. O referido escritor, um jornalista desempregado, depois da montagem fracassada de “O último escrúpulo”, recebera críticas arrasadoras e que lhe martelavam os pensamentos.
Pela tarde saia de casa, pegava um ônibus e ia admirar o lugar em que sempre sonhou estar: o Museu de cera Madame Tussauds. Ficava horas olhando para o lugar e se imaginando entre as grandes celebridades. Chegava mais perto só para sentir o clima, olhava a fila, mas não tinha dinheiro pra entrar. Parado na calçada ele se imaginava entre Penélope Cruz e Woopy Goldberg. A divagação logo era interrompida pelo pesadelo de seu desalento, fazendo-o fugir para o Pub mais próximo. Conhecido pelos atendentes por suas bebedeiras, era saudado calorosamente na entrada: “o de sempre?”, perguntavam. Cambaleante, ele saia do Pub, procurando o telefone mais próximo para ligar para o museu; sem sucesso, evidentemente pelo horário. Chegava em casa e desabava na cama.
Tal rotina completava quase um ano quando decidira não sair da frente do museu enquanto não entrasse. Pela manhã toma a condução para o local. Chegando lá, como todo o fim de semana, a movimentação é intensa. Causando revolta geral ele ultrapassa todos e se dirige ao atendente. Os protestos das pessoas que estão à espera aumentam e o ator decide sair antes que o funcionário chame a segurança.
Sem sucesso em seu último intento, decide ir para sua dose alcoólica diária, porém pára no meio do caminho. Decide fazer o que tem em mente sóbrio, e não via melhor hora para o fazer. Dando meia volta, caminha um longo trecho até chegar em casa. Na caminhada não tem pressa, olha bem para a cidade no trajeto. Em casa, no quinto andar de uma rua relativamente movimentada, ele fita por um bom tempo todos os cômodos. Na sacada, admira a vista. Toma coragem. Sobe no parapeito e fecha os olhos para evitar vertigem. De súbito se atira. A multidão que se aglomera aos burburinhos em volta do corpo estirado no meio da rua impede que qualquer um escute o tocar do telefone na casa. A secretária eletrônica atende: “bom dia, recebemos várias de suas cartas e gostaríamos de conversar com o senhor sobre a possibilidade atender seu pedido. Estamos aumentando nosso acervo e gostaríamos de contar com você nesse processo”. O convite para virar estátua no Madame Tussauds lhe chegou em boa hora.