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O relato em primeira pessoa composto por fragmentos é um recurso próprio ao filme intimista determinado a tratar sobre o papel da memória na reconstrução de acontecimentos, como é o caso de Cronologia da Água, de Kirsten Stewart, sua estreia na direção. O longa conta o drama da personagem, Lídia, uma aspirante à nadadora que encontra na literatura o seu meio de expressão e “mergulha” nas marcas de violência que perpassam a pré-adolescência da personagem para, posteriormente, "submergir" na sua vida adulta. Trauma e escrita.
Cronologia da água é inspirado na biografia da escritora Lydia Yuknavitch, nascida na Califórnia e autora do livro que dá título ao filme, ela tentou a carreira de nadadora, mas o vício em drogas acabou precocemente com o seu sonho. No filme de Stewart, a dimensão traumática da história de Lídia ganha contornos aos poucos pela proposta fragmentária, pelas marcas de violências, mesmo que de forma irregular, por vezes sem muita direção. Por outro lado, o ponto de vista subjetivo, como base do drama psicológico, potencializa o caráter um tanto ensaístico do início da história em seu teor poético.
Além da boa atuação da protagonista, Imogen Poots, o filme tem como ponto alto a participação de Jim Belushi - alívio cômico diante do desfile de tragédias da história. Fica claro que Stewart quer enfatizar os traumas vividos pela personagem, bem como os rastros na vivência de Lidia e no seu processo de criação literário. A Cronologia da Água começa apostando na subjetividade como um fator decisivo para a criação da narrativa; mas, aos poucos, parece abandonar essa proposta se distanciando da personagem para mostrar mais suas ações. É então que a história de superação aparece.
A relevância do longa de Stewart reside justamente na temática tratada como uma espécie de crônica pessoal. Assim, o resultado é um filme que encontra seu impacto pela fotografia, pela aposta no relato em primeira pessoa, numa narrativa que busca abordar o limite entre memória e biografia.
