Como pensar a produção do que se chama hoje de jornalismo cultural no Brasil? Três revistas, três abordagens diferentes do chamado “jornalismo cultural”. 
Pouco se tem ideia, ou pouco se utiliza o que hoje se chama de jornalismo cultural. Não vou me arriscar a fazer divagações filosóficas a respeito do que deva ser chamado de Jornalismo Cultural. Vou me restringir ao termo comum, a como ele é concebido normalmente e vou pensar como é utilizado atualmente no Brasil. Fazer, para isto, uma crítica das revistas que dizem abordar o universo cultural. Exemplifico aqui com três revistas que são relativamente representativas: a revista Bravo!, a revista Cult e a revista Piauí.
Considero-me mais apto a falar na utilização do Jornalismo Cultural agora, em que acompanho mensalmente estas revistas. Posso adiantar que as três possuem propostas de abordagens bem diferentes. Precisarei de mais de um texto para falar sobre o assunto. Começo tratando sobre o conteúdo.
Quando o leitor se depara com a palavra crítica, logo deve pensar que se trata de esculhambar as publicações. Longe disso, pois a crítica não se restringe a coisas negativas. Considero que as três publicações, logo de cara, se deparam com uma tarefa hercúlea: tratar sobre cultura em um país de poucos leitores e que pouco se incentiva a cultura. Considero que passamos já da fase em que se considerava a cultura como algo restrito a um grupo de “privilegiados” que ficariam tergiversando sobre o sexo dos anjos. Afirmo que a cultura tem um papel fundamental, diria até básico para a diminuição das mazelas socais e, com isto, descarto logo toda e qualquer abordagem que procura separá-la das outras esferas da vida social.
Começo por aí, sem querer ao certo definir o que seja cultura, sob o risco de gastar cinco folhas e sequer chegar a alguma conclusão convincente. Como cultura, e aqui também não chego a nenhuma definição fechada, abordo também um patrimônio que pode ser transmitido, e a transmissão é que determina seu próprio sentido. No sentido corrente da arte: música, teatro, artes plásticas etc, tal abordagem não poderia ser mais relevante. E é a isso que se dedicam as três publicações que trato no texto.
Não me agrada qualquer jornalismo que tente, de qualquer forma, separar temas e seções como se eles fossem universos estanques, separados das outras “editorias”. Poderia evocar Benjamin aqui, um adepto da crítica cultural, mas não vou, por hora, correr tal risco.
Começo pela revista Cult, e afirmo que esta revista possui uma proposta
sui generis para uma realidade como a brasileira. As capas da revista logo anunciam: tratam muito do universo teórico, de autores e pensadores, como Foucault, Lacan, Derrida etc. Trazem uma discussão, chego a um exagero, alienígena para a realidade do Brasil. Sua tarefa é talvez a mais complicada: aproximar estas discussões do cotidiano das pessoas, o que, na prática, ainda passa longe de ser realidade. A revista tem seus altos e baixos e também traz o cinema, a música e o teatro como temas. Traz também ensaios que buscam pensar temas, além de resenhas. Existem muitas abordagens que são interessantes, muitos artigos que conseguem pensar até de forma a problematizar o tema; outros, entretanto, e aí é uma coisa que serve para muitas revistas, não fogem das abordagens comuns.
É então por meio da revista Cult que podemos pensar a importância das análises teóricas, que podem ser trazidas à tona para pensar nossa realidade. Para isso, muito deve ser feito e pensado para que isto faça parte da realidade das pessoas, de certa forma vivenciado.
A Bravo! já tem uma proposta diferente, mas que também vai nesta barca do que denominei de tarefa hercúlea. Ela procura uma comunicação diferente com o leitor: serve muito como um guia, uma referência em que possam buscar informações e indicações sobre o que está rolando no mundo das artes e dicas sobre estes universos. Ao olhar sua concepção, posso chegar a afirmar que se trata de uma espécie de mediador. Esta definição, apesar de metafórica, procura traduzir o papel da revista. Um mediador na medida em que procura despertar o interesse do púbico pela arte, ou pela cultura.
Embora sirva como uma referência e cumpra bem o papel, acredito que este tipo de jornalismo deve cuidar para não cair na total segmentação, ou segregação das editorias ou seções, como se fossem universos estanques. A Bravo! de vez em quando faz este diálogo entre os campos, música, cinema, entre si e destes com outras esferas sociais. Isto é, acredito, de suma importância.
Já a Piauí traz um texto singular, um estilo de jornalismo que prima pela questão do texto, das histórias. Esta revista também traz discussões sobre música, cinema, mas pouco se dedica a o que se definiu como crítica cultural. Tem um estilo de jornalismo que busca mais perfis e histórias curiosas. Recentemente, entretanto, começou a analisar filmes, especificamente com críticos.
No caso da Piauí, acredito que a questão do texto muitas vezes tende a afugentar o leitor. Isto também é uma questão de costume. Por isso também é que surgem indagações sobre o futuro deste tipo de jornalismo com textos mais extensos e que se situam entre a abordagem original e a análise mais demorada. É neste sentido que o Jornalismo Cultural deve caminhar, e que publicações como estas três procuram nos habituar.