segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Perspectivas para o jornalismo




Foi decepcionante ler na Folha, jornal tido como a referência do país, a seguinte manchete: “Polícia ocupa morro do alemão”. Uma manchete quadrada, sem criatividade e que afirma o óbvio, pois no dia anterior tínhamos sido bombardeados pelas imagens da ocupação do morro. Mas não foi apenas a Folha.
Alguma coisa, então, deve diferenciar o jornalismo impresso. Ele não pode cair na mesmice de afirmar o que foi tão evidente e tão comentado. O jornalismo deve se dar conta de que convive com uma imensidão de informações e novas formas de compartilhá-las. A criatividade, nesse contexto, é fundamental.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Paisagens de lugar nenhum



Recentemente fui a uma exposição das mais interessantes desses últimos tempos. Ela trata de um dos artistas mais expressivos da história da arte brasileira, e que muitas vezes foi reduzido ao adjetivo de modernista. A mostra se chama: Guignard e o Oriente: China, Japão e Minas, que agora está chegando ao fim no MARGS.
A proposta da exposição é comparativa, colocando lado a lado quadros de Guignard e de artistas orientais, do Japão e da China. Com isso, procura claramente ressaltar as semelhanças e a herança de Guignard da arte oriental.
Se é possível de notar as semelhanças, ao mesmo tempo podemos constatar a forma peculiar pela qual Guignard tratou as paisagens, que se diferenciam muitas vezes das tratativas orientais.
Mais uma vez podemos ver como ele aliou essa técnica a um estilo das paisagens que consagraram, principalmente, o final de sua obra.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

A Linguagem e suas ironias

Exposição traz o universo de artistas que exploraram a linguagem e toda sua ironia, seu universo de significações e metáforas






A exposição Alfabeto Enfurecido: León Ferrari e Mira Schendel explora o universo da linguagem por meio da palavra, não só como meio de expressão, mas também como tema fundamental. A mostra confronta o trabalho de León Ferrari e Mira Schendel, que utilizam-se de diversas formas de manifestação artística.
Logo na chegada o visitante é surpreendido por um exemplo do hibridismo presente na mostra: um trabalho de Mira que explora a questão da matéria e todo seu aspecto simbólico.
León Ferrari trata constantemente da religião de forma peculiar. A ironia é constante em suas obras, que carregam a bagagem de quem passou por uma ditadura. Sua ironia é corrosiva, mordaz. Ferrari traz diversos recursos, utiliza-se da caligrafia, de colagens, e faz críticas fortes à igreja.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Jornalismo Cultural e o futuro do jornalismo 1

Como pensar a produção do que se chama hoje de jornalismo cultural no Brasil? Três revistas, três abordagens diferentes do chamado “jornalismo cultural”.



Pouco se tem ideia, ou pouco se utiliza o que hoje se chama de jornalismo cultural. Não vou me arriscar a fazer divagações filosóficas a respeito do que deva ser chamado de Jornalismo Cultural. Vou me restringir ao termo comum, a como ele é concebido normalmente e vou pensar como é utilizado atualmente no Brasil. Fazer, para isto, uma crítica das revistas que dizem abordar o universo cultural. Exemplifico aqui com três revistas que são relativamente representativas: a revista Bravo!, a revista Cult e a revista Piauí.
Considero-me mais apto a falar na utilização do Jornalismo Cultural agora, em que acompanho mensalmente estas revistas. Posso adiantar que as três possuem propostas de abordagens bem diferentes. Precisarei de mais de um texto para falar sobre o assunto. Começo tratando sobre o conteúdo.
Quando o leitor se depara com a palavra crítica, logo deve pensar que se trata de esculhambar as publicações. Longe disso, pois a crítica não se restringe a coisas negativas. Considero que as três publicações, logo de cara, se deparam com uma tarefa hercúlea: tratar sobre cultura em um país de poucos leitores e que pouco se incentiva a cultura. Considero que passamos já da fase em que se considerava a cultura como algo restrito a um grupo de “privilegiados” que ficariam tergiversando sobre o sexo dos anjos. Afirmo que a cultura tem um papel fundamental, diria até básico para a diminuição das mazelas socais e, com isto, descarto logo toda e qualquer abordagem que procura separá-la das outras esferas da vida social.
Começo por aí, sem querer ao certo definir o que seja cultura, sob o risco de gastar cinco folhas e sequer chegar a alguma conclusão convincente. Como cultura, e aqui também não chego a nenhuma definição fechada, abordo também um patrimônio que pode ser transmitido, e a transmissão é que determina seu próprio sentido. No sentido corrente da arte: música, teatro, artes plásticas etc, tal abordagem não poderia ser mais relevante. E é a isso que se dedicam as três publicações que trato no texto.
Não me agrada qualquer jornalismo que tente, de qualquer forma, separar temas e seções como se eles fossem universos estanques, separados das outras “editorias”. Poderia evocar Benjamin aqui, um adepto da crítica cultural, mas não vou, por hora, correr tal risco.
Começo pela revista Cult, e afirmo que esta revista possui uma proposta sui generis para uma realidade como a brasileira. As capas da revista logo anunciam: tratam muito do universo teórico, de autores e pensadores, como Foucault, Lacan, Derrida etc. Trazem uma discussão, chego a um exagero, alienígena para a realidade do Brasil. Sua tarefa é talvez a mais complicada: aproximar estas discussões do cotidiano das pessoas, o que, na prática, ainda passa longe de ser realidade. A revista tem seus altos e baixos e também traz o cinema, a música e o teatro como temas. Traz também ensaios que buscam pensar temas, além de resenhas. Existem muitas abordagens que são interessantes, muitos artigos que conseguem pensar até de forma a problematizar o tema; outros, entretanto, e aí é uma coisa que serve para muitas revistas, não fogem das abordagens comuns.
É então por meio da revista Cult que podemos pensar a importância das análises teóricas, que podem ser trazidas à tona para pensar nossa realidade. Para isso, muito deve ser feito e pensado para que isto faça parte da realidade das pessoas, de certa forma vivenciado.
A Bravo! já tem uma proposta diferente, mas que também vai nesta barca do que denominei de tarefa hercúlea. Ela procura uma comunicação diferente com o leitor: serve muito como um guia, uma referência em que possam buscar informações e indicações sobre o que está rolando no mundo das artes e dicas sobre estes universos. Ao olhar sua concepção, posso chegar a afirmar que se trata de uma espécie de mediador. Esta definição, apesar de metafórica, procura traduzir o papel da revista. Um mediador na medida em que procura despertar o interesse do púbico pela arte, ou pela cultura.
Embora sirva como uma referência e cumpra bem o papel, acredito que este tipo de jornalismo deve cuidar para não cair na total segmentação, ou segregação das editorias ou seções, como se fossem universos estanques. A Bravo! de vez em quando faz este diálogo entre os campos, música, cinema, entre si e destes com outras esferas sociais. Isto é, acredito, de suma importância.
Já a Piauí traz um texto singular, um estilo de jornalismo que prima pela questão do texto, das histórias. Esta revista também traz discussões sobre música, cinema, mas pouco se dedica a o que se definiu como crítica cultural. Tem um estilo de jornalismo que busca mais perfis e histórias curiosas. Recentemente, entretanto, começou a analisar filmes, especificamente com críticos.
No caso da Piauí, acredito que a questão do texto muitas vezes tende a afugentar o leitor. Isto também é uma questão de costume. Por isso também é que surgem indagações sobre o futuro deste tipo de jornalismo com textos mais extensos e que se situam entre a abordagem original e a análise mais demorada. É neste sentido que o Jornalismo Cultural deve caminhar, e que publicações como estas três procuram nos habituar.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Jornalismo literário e o futuro do jornalismo 1



Tenho tido surpresas com relação ao lançamento de revistas e publicações de qualidade no Brasil. Embora não muito condizente com nossa realidade, recentemente foi lançada uma revista que herda o melhor do jornalismo literário e traz muita qualidade nos artigos, ao estilo New Yorker. Refiro-me à revista Serrote, nova publicação do Instituto Moreira Sales. A edição numero 4 está muito interessante, com um visual de qualidade e com textos que prometem. A qualidade da revista está em sua concepção bem realizada na prática.
Desde o lançamento de Piauí, iniciou-se um debate, acredito que principalmente no meio jornalístico, sobre a viabilidade e a expansão do jornalismo storyteller (contador de histórias), que carrega no texto e, ao estilo herdado um pouco da escola americana, se vale de ilustrações e do humor para se comunicar com o leitor.
Quanto ao futuro deste jornalismo, ainda surgem diversos questionamentos. Entretanto, quem gosta do bom jornalismo e de literatura, torce para que publicações como Serrote aumentem com o tempo.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Como ganhar um Oscar

A Argentina tem reservado boas surpresas para os amantes de cinema. O vencedor do Oscar, “O segredo de seus olhos”, faz parte desta safra de bons filmes vindos da terra dos hermanos.



Pegue uma história de amor mal resolvida, misture com suspense, humor, uma história bem construída e com certo caráter autoral. Estes são os ingredientes que levaram “O segredo de seus olhos” a conquistar o Oscar e desbancar o “favorito” "A fita branca", de Haneke. Não se trata de uma receita de bolo, mas em muitos casos a academia privilegia uma história de amor, e principalmente bem construída como no filme de Juan José Campanella.
O filme tem realização interessante e alterna diversos momentos de suspense e humor. Tem planos inusitados que na maioria das vezes funcionam e buscam fugir aos clichês de Hollywood. Não é um filme comum, apesar de em alguns momentos cair nesta armadilha. O tema é muito bem desenvolvido, a trama deixa o espectador ligado, e o final tem uma seqüência que vale o ingresso.
Apesar das boas atuações e do tema polêmico, talvez esteja na história de amor a principal razão do filme ter levado o prêmio (combinada com a qualidade do filme).

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O encontro de mestres da gravura

Conhecer o trabalho de Lasar Segall, Oswald Goeldi e Iberê Camargo é ficar por dentro de um período fundamental da história da arte. Nomes importantes da arte brasileira, eles tiveram uma produção significativa como gravuristas.
A possibilidade de conhecer o universo dos três de forma comparativa na mostra O Cálculo da expressão, na Fundação Iberê Camargo, foi muito interessante pela vasta amostragem do trabalho de cada um. Pode-se distinguir as preocupações de cada artista e seus temas preferidos, bem como a maneira peculiar pela qual eles os tratam.
A exposição da fundação Iberê Camargo foi tão marcante que escrevi um texto para a Bravo! de fevereiro.


http://bravonline.abril.com.br/conteudo/artesplasticas/calculo-expressao-estrangeiro-notivago-idiota-critica-531459.shtml







sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O Marx que "revolucionou" o modo de ver e pensar a arte

O sobrenome não é mera coincidência: ele é parente do autor do Capital. Seu trabalho impressiona pela abrangência, o que está presente na mostra que estava em cartaz no MAM de São Paulo, uma das melhores das que visitei durante os últimos anos. Tudo começou quando decidi escrever sobre o trabalho de Burle Marx e descobri que ele é responsável por projetos de vários lugares pelos quais passamos e nem sequer prestamos atenção. Dois dos mais famosos projetos do artista são: o aterro do flamengo e o calçadão de Copacabana.



A exposição Burle Marx: a permanência do instável no MAM mostra a amplitude e diversidade da produção do artista. Para quem não sabe, o calçadão do Rio de Janeiro é um dos projetos de Burle Marx. Talvez um dos mais famosos projetos deste artista - mais conhecido como paisagista - que tem um amplo trabalho em diversas áreas: pintura, desenho, gravura, cerâmica, cenografia, música, joalheria. Burle Marx possui uma formação e uma produção em artes plásticas bem representada na exposição.
Será possível hoje, em um contexto que demanda cada vez mais especialização, surgir um artista que dialogue com tantos campos? Esta é uma pergunta que surge para quem deixa a exposição do MAM. A mostra é sensacional e tem o mérito reunir uma vasta amostragem da obra de Burle Marx que, além disso, se destacou por ser um dos pioneiros da consciência ecológica na preservação e utilização de espécies em extinção da natureza brasileira. A visão abrangente de Burle Marx, que engloba principalmente a questão das artes plásticas em dialogo com o paisagismo (algo que o artista considerava essencial), é um dos destaques da mostra. Muito bem distribuída pelo museu, Burle Marx: a permanência do instável permite notar toda a inovação de quem transpôs a sua influência da pintura, de caráter abstrato e cubista, para as paisagens. Segundo o artista, quem quisesse trabalhar com paisagismo deveria ter esta noção de artes plásticas, na medida em que são campos complementares. Além disso, nota-se a ambição e a influência da música no seu trabalho, seja na harmonia entre as partes, seja na composição entre o jogo de linhas.
Burle Marx não é tão conhecido por seus quadros, e talvez seja um dos fatores marcantes da exposição: disponibilizar ao público as pinturas do artista, que mostram com clareza a hibridização de linguagens, ao mesmo tempo em que criam um universo interessante. A exploração das linhas e das cores é, quem sabe, um dos grandes destaques de seu trabalho como artista plástico; além, é claro, de sua visão arquitetônica. Pude conhecer, desta forma, muito mais sobre a própria história da arte e o trabalho ambicioso e abrangente de Burle Marx. Quem vai hoje ao Ibirapuera tem esta oportunidade de conhecer mais o trabalho do artista, bem como saber mais informações sobre um dos grandes destaques da história da arte no Brasil em um panorama muito interessante.



Uma viagem pela Fundação Iberê Camargo

Confira as fotos que tirei quando fui fazer o texto sobre a exposição na Fundação Iberê Camargo.

O texto vai ser publicado na Bravo! de fevereiro! Não percam.
Fundação Iberê Camargo,
por Bruno Maya







A atualidade do trabalho de Guignard

Passei a estudar mais o trabalho de Guignard na época em que teve uma exposição na Fundação Iberê Camargo. Acabei escrevendo para a revista Bravo! e conheci mais sobre sua trajetória. O que me chamou atenção nos quadros do artista é como eles herdam características dos grandes mestres e, ao mesmo tempo, retratam paisagens de modo particular.

http://bravonline.abril.com.br/conteudo/artesplasticas/demolidor-cliches-419198.shtml



Revista BRAVO! | Fevereiro/2009

O Demolidor de Clichês
Guignard sempre foi visto como representante do nacionalismo modernista. Uma exposição em Porto Alegre mostra um pintor bem mais complexo, que evitava os cacoetes da escola

Por Bruno Maya

Até recentemente, o pintor fluminense Alberto da Veiga Guignard (1896-1962) foi visto como integrante do time modernista, um nome menor numa escalação capitaneada por Cândido Portinari (1903-1906) e Di Cavalcanti (1903-1962). De acordo com os cânones dessa escola, Guignard buscaria retratar em seus quadros o imaginário nacional — e suas telas repletas de bandeirinhas brasileiras seriam a prova disso. O tempo mostrou que se tratava de uma simplificação. Enquanto a Semana de 1922 eclodia, Guignard pincelava na Europa, onde viveu a infância e absorveu influências dos franceses Paul Cézanne (1839-1906) e Henri Matisse (1869-1954). Com 33 anos, ao retornar definitivamente ao Brasil, em 1929, seu traço espontâneo destoava completamente do dos artistas do período.

A pequena mas precisa exposição Um Mundo a Perder de Vista — Guignard é valiosa justamente por mostrar a complexidade da produção do artista, concentrando-se na fase final (1929 -1961). As 43 obras que ocupam o terceiro andar da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, cumprem com êxito a proposta de mostrar que paisagens como as da série Noite de São João não são mera ode ao nacionalismo.

É bem verdade que o pintor nascido em Nova Friburgo (RJ) sempre se declarou um apaixonado por Ouro Preto, cidade para onde se mudou em 1944. Um tema recorrente em suas obras são as igrejas barrocas que surgem por entre montanhas mineiras. Um olhar mais atento, porém, percebe que a técnica refinada e o grafismo elaborado das pinturas revelam, acima de tudo, inquietação. Muito mais do que um cenário realista, as paisagens retratadas são trechos de lugar nenhum, cheios de vazios.



quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Os melhores





Não poderia deixar de registrar aqui o impacto causado pelo filme Pro dia nascer feliz, de João Jardim. Na minha opinião talvez um dos melhores documentários brasileiros já produzidos. Saem os lugares comuns, clichês entre o bem e o mal, estilo Tropa de elite, e entram em cena elementos de uma realidade complexa, cheia de contrastes e abismos sociais. Está retratada no filme a juventude. Os sonhos, as esperanças e as perspectivas estão lado a lado, de forma crítica e que carrega a poesia própria a essa fase da vida.
Os personagens são figuras cativantes, e o filme consegue explorar bem seu universo. Conhecemos particularmente a história de uma menina que emociona pela sua simplicidade, mas ao mesmo tempo pelo seu talento, sua poesia. Não há nada de melancólico nela, muito pelo contrário. Há sim criatividade, lirismo e ao mesmo tempo disposição. E tudo isso nos chega contrastando com a sua realidade, o que deixa ainda mais clara a situação de abandono em que está o nordeste. Esta menina representa a poesia que falta para o mundo atual, nos lembra como a injustiça nos confronta, nos desafia, nos faz pensar. Como alguém pode viver em tal situação? Os professores, claro, desacreditam. Como alguém como ela pode fazer tais poemas? Criatividade não é bem vinda, lirismo também não. Vivemos na nossa velha máquina de treinar os alunos para o vestibular e para uma carreira, embora não estejam preparados e pouco saibam. Ainda somos "ensinados" pela velha lógica da competitividade e pelas notas, pelo conhecimento técnico, burocrático.
Tudo isso surge quando vemos o caso dessa menina vivendo na realidade miserável do sertão pernambucano. Soma-se a isso o abandono denunciado pelo filme, as ameaças aos professores das escolas, sua falta de condições e preparo, seu medo constante. Os jovens estão muito mais interessados pelo mundo lá fora. Eles vivem em uma realidade cheia de movimento, informações, dinâmica. O mundo da rua contrasta com o velho sistema de ensino, preso ainda a sua decadência e precariedade, o que em nada corresponde à realidade de muitos jovens da periferia das grandes cidades e dos lugares mais pobres. Para eles, a sala de aula chega a ser um lugar de “outro mundo”. Que conhecimento está sendo transmitindo pelas escolas e qual sua função? Que condições têm alunos e professores de aprendizagem e trabalho? São algumas das perguntas urgentes deixadas pelo filme.
O final do filme traz os depoimentos de jovens que não estão na escola e se envolvem com o crime. Afirmam eles que “se os políticos podem roubar, porque nós não podemos?”. O exemplo deveria vir deles, não deveria? "Eles roubam muito mais e não são presos”. Enquanto esta imagem não mudar, dificilmente teremos uma mudança significativa no país das Olimpíadas.



O filme Caché e as páginas menos gloriosas da nação

Toda a sociedade tem um dever com seu passado: ela deve impedir que ele seja irremediavelmete apagado. Esta dívida com o passado não pode subjulgar o presente, nem é certo que todas as lições do passado sejam igualmente recomendáveis. A memória coletiva prefere guardar, no passado da comunidade, dois tipos de situações: aquelas que fomos ou heróis vitoriosos ou vítimas inocentes. As duas permitem legitimar nossas reivindicações presentes. Mas tais situações, que podem ter realmente existido, contribuem mais para nos cegar com relação ao presente do que nos deixar lúcidos. As páginas menos gloriosas de nosso passado seriam as mais instrutivas, se aceitássemos lê-las.
As palavras do autor búlgaro, erradicado na França, Tzvetan Todorov, em seu livro O homem desenraizado, resumem precisamente as questões trazidas por um dos filmes mais interessantes que já vi, chamado Caché. Caché é um filme de 2005, uma produção de quatro países: França, Áustria, Alemanha e Itália. Tem direção e roteiro de Michael Haneke e em seu elenco Daniel Auteuil, Juliette Binoche e Maurice Bénichou. A trama trata sobre uma família atormentada por ameaças que chegam por correio e que sugerem que seu cotidiano está sendo vigiado. Logo percebem que quem os persegue conhece mais sobre o seu passado do que eles poderiam esperar. A descoberta do mistério na verdade é uma viagem ao passado do personagem principal e, antes de tudo, pela memória da França.
O episódio traumático da história francesa ao qual o filme remete é o massacre de mais de 200 argelinos na beira do Rio Sena. Em 17 de Outubro de 1961, durante a Guerra da Argélia, Maurice Papon, um oficial do Governo Francês de Vichy, que colaborou com o Regime Nazista durante a Segunda Guerra Mundial, era Chefe da Polícia de Paris. Depois de uma marcha pacifista, organizada pela "Frente de Libertação Nacional" argelina, centenas de civis argelinos foram mortos pela polícia francesa comandada por Papon. O número exato permanece desconhecido.
O que é interessante no filme Caché é exatamente como ele conta a história. A realização é extremamente ousada, com planos muito pouco usuais e uma narrativa que mantém o suspense. O filme deixa um certo mal-estar que aumenta na medida em que o mistério permanece. É impressionante a significação que o filme traz em cada plano, ao mesmo tempo em que ganha as grandes atuações de Daniel Autuel e de uma das atrizes francesas mais badaladas atualmente, Julliette Binoche.
É por trazer todos esses elementos e por fugir completamente ao esquema de ação de muitos filmes hollywoodianos, que sequer deixam tempo para pensar, que considero Caché fundamental para quem gosta de cinema. O filme traz reflexões interessantes, atuais, e que, embora digam respeito à França, devem ser pensadas por todas as nações.

Retorno

Resolvi colocar também um texto meu sobre retorno, estranhamento. Normal para quem se desloca, vive na condição de estrangeiro.
Isto fez sempre parte da minha história. Idas, retornos.


Novamente estava à beira da praia, lugar em que passou boa parte de sua vida. Tudo, ao mesmo tempo em que lhe parecia familiar, causava-lhe estranheza. O mar estava mais calmo, a areia menos quente, o vento mais brando. Não entendia muito bem o porquê as coisas que lhe pareciam tão naturais antes, agora reparava muito mais detalhadamente. As ondas que tanto o incomodavam e que quase foram motivo de afogamento de muitos conhecidos seus, pela sua intensidade e perigo, agora estavam calmas, e eram comparadas a uma lagoa. A bandeira, que estava sempre presente avisando do perigo das marés, nem lá estava. As pedras, que costeavam as trilhas, programa que costumava encarar como uma grande aventura, pareciam menores e sem nenhum risco. Lembrava-se perfeitamente de quando reunia os parentes para ir pelas pedras e chegar nas trilhas, tarefa feita com todo cuidado em razão da dificuldade, e a impressão era de que qualquer descuido seria fatal. No mesmo caminho que fazia, não reconhecia tal perigo nem de longe. Olhando ao redor da praia, relembrou que, perto das dunas, costumava a participar de batalhas memoráveis nos jogos freqüentes de futebol. Esporte que, aos poucos, foi largando, mas que era o seu preferido. Velhos tempos em que vestia a camisa 10 e marcava um gol por jogo. Essas memórias causaram certo mal-estar. Nem parecia a mesma praia. Nem o quiosque ao qual seus pais costumavam freqüentar durante o fim da tarde para tomar uma cerveja, estava lá. Deixou a praia crente de que o lugar, realmente, não era o mesmo.

uma literatura internacional

Foi durante o mestrado que li os livros de Milton Hatoum. Resolvi escrever sobre seu último livro, que me chamou atenção por tratar dos temas referentes ao meu trabalho. Sua literatura tem forte teor autobiográfico e fundamentalmente fala do estrangeiro, do migrante, do estranhamento próprio às transições e deslocamentos.


Em A Cidade Ilhada, Milton Hatoum desmistifica a idéia de uma literatura regional e por meio de fragmentos de memória mostra de forma simbólica os rumos do desejo em um mundo globalizado. O escritor amazonense traz para sua literatura sua condição de migrante e, como um estrangeiro, explora os limites entre o local e o global, o conto e a crônica. As histórias, estilhaços de memórias, imprimem um teor biográfico à obra. Hatoum parece construir um território em que se encontram vida e morte, ficção e realidade, lembrança e existência. A atualidade das narrativas de A cidade Ilhada está inscrita nos restos do que hoje chamamos de memórias e das construções surgidas das ruínas da experiência do horror, o qual mostrou na intolerância até que ponto a segregação pode chegar. Os personagens de Hatoum transitam por um território internacional de encontros e desencontros e mostram o quanto não nos conhecemos, o estrangeiro que parece atravessar as fronteiras

sobre Woody Allen

Woody Allen certamente foi uma das minhas grandes referências desde o tempo em que comecei a estudar e ver mais cinema. Estes dois textos surgiram em momentos diferentes. Um é sobre o livro dele, interessante para quem quer conhecer o trabalho do diretor. Outro, sobre um dos filmes recentes que mais me chamou atenção: Vicky Cristina Barcelona.



Enquanto a música repetia incessantemente “Por que tanto perde-se/Tanto buscar-se/Sem encontra-se?", Woody Allen apresentava seu novo filme diante de um cenário novo para suas produções: Barcelona. O olhar deslumbrado de quem encontra um novo mundo nas arquiteturas de Gaudí é representando pela viagem dessas duas turistas que não conseguem se achar no amor. Mas se tem alguma coisa que Allen achou foi a atriz ideal para interpretar a explosiva e alucinada ex-mulher do protagonista da trama, interpretada por Penélope Cruz. Tanto quanto perdida estava a personagem Vicky, interpretada Rebecca Hall, relutante em admitir sua vontade de largar seu plano racional de casamento perfeito, e sua segurança, por uma aventura com um artista, Juan Antonio, interpretado por Javier Bardem. Entre encontros e desencontros amorosos Allen retoma seu tema preferido: a complexidade das relações.
A antítese de duas amigas que viajam juntas serve como fio condutor da trama: uma sabe o que quer (aparentemente, ou racionalmente), e a outra que só sabe o que não quer (tudo que parece estar em seu controle). Uma delas representa o lugar no qual foge do discurso, o que escapa do sentido da fala. Essa é Vicky, tão estudiosa quanto incapaz de lidar com seus sentimentos, Allen aproveita para fazer sua crítica irônica a intelectualidade por meio dessa personagem. Cristina, pelo contrário, rejeita um destino normal e calculado pretendido por sua amiga, não gosta do controle racional, e fica atraída pelo caráter libertário e talentoso que ela viu em um artista, Juan Antonio. Ele acaba se envolvendo com Vicky, e ambos acabam se interessando um pelo outro, mesmo sem admitir. A frase os opostos se atraem poderia ser aplicada nesse caso, entretanto a ironia está aí: segura com seu casamento com um nerd executivo, ela reluta em dizer que sente atração por tudo que ela rejeita. O mais simbólico é que ela estuda Identidade Catalã, e acaba se envolvendo com um artista de Barcelona.
Cristina é o desejo em sua eterna busca, insatisfeito. Envolvida com Juan Antonio, ela parece ter encontrado seu par ideal. Mas perfeição é o que Allen desmonta. Tudo começa com a chegada da frenética e temperamental ex-mulher de Juan Antonio, interpretada por Penélope Cruz.
Não é o melhor nem o pior filme de Woody, mas carrega a marca de seus temas e, mesmo que acanhado e diferente, seu humor. A produção representa uma fase européia de Allen, tão acostumado a atmosfera cinzenta de Nova York. Agora resta saber ela vai continuar, como ele sempre trata: no drama ou na comédia.

Publicado na revista online Paradoxo


Em busca da perfeição

Livro Conversas com Woody Allen mostra o diretor em sua intensidade criativa, autocrítico e obcecado por suas criações.

Aos 73 anos, Woody Allen apresenta uma extensa filmografia – lança praticamente um filme por ano – e certamente é um dos grandes diretores de cinema em atividade. Não bastasse a consagração cinematográfica, tornou-se sensação editorial: sua trajetória foi retratada de forma abrangente e repleta de nuances no recente título do jornalista Eric Lax, Conversas com Woody Allen. A obra reúne entrevistas concedidas pelo cineasta durante 36 anos – desde que Lax foi designado para traçar o perfil de um ainda “jovem comediante” de New York, no início da década de 70. O livro mostra um Woody centrado, obsessivo por suas criações, extremamente autocrítico e alheio ao sucesso.
“Quando vejo os filmes do Bergman pergunto o que estou fazendo aqui”. Inconformado, Woody Allen sempre se comparou ao diretor sueco, em atitude que resume sua intensa cobrança criativa. “Não sou cínico, estou longe ser um artista. Sou um sortudo viciado em trabalho”, define o diretor.
Conversas com Woody Allen demonstra a variedade das produções do cineasta e traça um amplo panorama de seus pensamentos em vários momentos da carreira. Um retrato do diretor em sua intensidade criativa, falando sobre temas como paixões, musas, família, trilhas sonoras etc. Nos depoimentos, nota-se o quanto Woody exagera nas críticas ao seu trabalho. Um perfeccionismo que o cineasta alega ser realismo. Além disso, a reclusão e a discrição de Woody não costumam ser bem vistas - nunca ligou para o sucesso ou para a fama, não gosta de aparecer em festas e premiações. O que muitos interpretam como arrogância ou desdém, no entanto, o cineasta diz ser timidez.
Um dos pontos mais interessantes no livro é a evolução de Woody, um escritor que passou por diversas fases criativas. Começou no cinema mais como comediante do que diretor, com filmes que eram seqüências de piadas em esquetes rápidas, sem trama definida. Foi se aperfeiçoando e chegou a ganhar o Oscar com Noivo Neurótico, Noiva Nervosa [1977], contracenado com sua ex-mulher, Diane Keaton. A produção representou um avanço na carreira, que mais tarde teve sucessos como Manhattan [1977] e Crimes e Pecados [1989]. Uma terceira mudança viria em Match Point [2005]. Segundo o cineasta, o filme inaugura uma nova fase, na qual sente mais segurança para fazer drama, coisa que sempre desejou.

_drama ou comédia?
Na leitura de Conversas com Woody Allen nota-se um diretor querendo ser levado a sério. Woody explora sempre o limite entre comédia e drama, mas deixa claro nas entrevistas que prefere o segundo gênero. Tanto é verdade que aponta Match Point [2005] e A rosa púrpura de Cairo [1985] como dois dos seus melhores filmes. Fã declarado do comediante Bob Hope, não nega a importância do humor, embora enfatize a preferência por filmes como Uma Rua Chama Pecado [1951, de Elia Kazan] ou The Iceman Cometh [1973, de John Frankenheimer]. Se a abrangência de Conversas com Woody Allen consegue mergulhar no universo do diretor, reforça excessivamente muitos lugares-comuns, como o fato de ele se achar um ator medíocre e um diretor limitado. Por isso, às vezes, a obra é um pouco repetitiva. Entretanto existem várias curiosidades no livro, como a parte em que Woody fala sobre sua família, ou quando são descritos os processos de seleção do elenco. É por essa abordagem abrangente e pelas peculiaridades que a leitura de Conversas com Woody Allen torna-se interessante, excelente para conhecer as invenções de um diretor criativo como Woody Allen.