sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Nheengatu e o resgate do rock político





No seu mais recente disco, Nheengatu, os Titãs buscam restabelecer em muitos aspectos a sonoridade do clássico Cabeça de Dinossauro. Rifs pesados, temas políticos e um rock mais engajado fazem parte do repertório. Claramente, a banda enfatiza seus discursos de denúncia, presentes em faixas antigas como Polícia, Bichos Escrotos e Vossa Excelência. Agora, as letras parecem remeter às manifestações de junho no Brasil e a violência policial, como já anuncia a primeira música: Fardados
Soma-se a isso a mistura que os Titãs imprimem ao estilo pesado de rock. Há claras referências à mistura entre Ska e Punk (Skapunk), que lembram Raimundos. As semelhanças vão da crítica à utilização da ironia, por exemplo, nas faixas República das Bananas e Fala Renata.    




O disco, então, é um presente a quem curte as primeiras composições dos Titãs e seu engajamento político. O enfoque não é tanto na elaboração complexa das composições, mas na denúncia e no aspecto político. Os temas de relacionamento, amor e cotidiano até aparecem, mas ao estilo pesado de rock que marca o disco, e que não encontramos tão frequentemente nas paradas das rádios.              

O cinema sempre perto do fim





"Uma coisa é certa, quando tivermos que fechar, não avisaremos ao público!”. Com essa frase categórica o proprietário de um pequeno espaço de cinema em Porto Alegre, Carlos Schimitt, responde aos que especulam sobre o encerramento das atividades diante da concorrência e da falta de estrutura diante das tecnologias. As salas fazem parte de um pequeno centro comercial, o Olaria que, em nada, lembra um shopping. Localizado em uma das ruas mais conhecidas da cidade, a Lima e Silva, o Guion se notabilizou por oferecer filmes fora dos blockbusters do circuito comercial e, por isso, não hollywoodianos.
Era preciso uma afirmação frente aos boatos de que o estabelecimento de Schmitt estaria em crise, e próximo do fechamento. Falência anunciada por um dos jornais locais, que chamou atenção para a dificuldade do negócio, que segundo as informações, sofria para atualizar-se diante do custo da perda de público. “De aniversário, Guion Center enfrenta rotina de movimento fraco e pode fechar”, afirmou a manchete. O texto do jornal ainda traz um depoimento da mulher de Carlos, Aiko Schmitt, que relembra os áureos tempos do cinema, em que podia colocar a placa de que tinham ingressos apenas para a próxima sessão.        



Schimtt, desmente: “nosso movimento de público não é ruim, o que é problemático é que 70% do nosso público é composto por idosos e estudantes, e aí não existe fórmula mágica com a redução em 50% no faturamento, cinema nacional etc”. É ele mesmo quem encontramos recebendo os tickets de quem vinha para ao cinema no início da tarde de segunda feira. Apenas um senhor e duas adolescentes circulam pelo local, o que coincide com a reclamação sobre o público que, mesmo milionário, continuaria a frequentar os cinemas com meia entrada.
Segundo o governo federal, entretanto, estabelecimentos como o do Schimitt não precisam mais se preocupar, pois ele lança o programa “O Brasil de todas as telas”. Dentre os eixos previstos pelo programa está o “Programa Cinema Perto de Você”, que consiste em um conjunto de mecanismos voltados à abertura e modernização de salas de cinema em todo o Brasil. O governo promete destinar 350 milhões em investimento e crédito para a abertura de novas salas, digitalização do parque exibidor e investimento do projeto Cinema da Cidade.  
Em pronunciamento no dia do lançamento, a efusiva ministra Marta Suplicy afirma que “outra coisa que vai ajudar muito é o fato da Ancine abrir os canais financeiros de parceria para agentes sem operação estruturada a partir dos mecanismos de financiamento público do audiovisual, ou seja, programadoras, instituições de ensino e governos estaduais vão ter financiamento que não tinham”. A preocupação vai exatamente ao encontro da reclamação de Schimitt: “nosso espaço deveria ser estimulado pelo governo, mas o foco da Ancine é todo na produção e não na exibição”.
De fato, a proliferação de lugares que investem em filmes não-blockbuster vem acontecendo, e complicando a vida de espaços menores em Porto Alegre. Mesmo com as dificuldades, Schmitt garante: “Em termos técnicos (projeção e som) não há diferença entre as nossas salas e os cinemas de shopping”. “Somos obrigados pelo governo a exibir 42 dias (no ano anterior  foi pior, 72 dias p/sala) por sala de filme nacional o que dá 123 dias sem faturamento. Qual a contrapartida do governo. NENHUMA! Este ano de 2014 está sendo um ano para esquecer” desabafa.
Outro fator para a melhora do movimento no local pode ser a diminuição dos convescotes, reuniões de carnaval e folias que atrapalham os amantes da sétima arte: “por questões de segurança nos obrigaram a fechar; depois vieram os fechamentos de rua para blocos de carnaval, depois greve de ônibus, protestos de rua,”. Quem mora no bairro sabe que não são poucas as festas organizados na rua,  fora os protestos, que muitas vezes escolhem a Lima e Silva.