sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Ressurreição – Bi Gan devolve a magia ao cinema em filme denso e poético

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Passaram-se cerca de 105 anos desde que O Gabinete do Dr. Caligari levou para a tela criador/criatura, num dos maiores clássicos do expressionismo alemão. Tendo como referência o cinema mudo, Ressurreição reconstrói a história do cinema por meio do filme de rara qualidade e beleza. Não que a metalinguagem seja algo novo, muito pelo contrário, mas a maestria pela qual Bi Gan transita entre as referências de forma alegórica e potente, compõe um quadro pouco visto no cinema desses últimos anos.

Há uma dose de experimentalismo na história de Ressurreição, uma mistura de Yasujiro Ozu com Akira Kurosawa, em jornada existencialista, de poesia potente e de ficção científica desafiadora. Bi Gan, nesse sentido, consegue aliar uma metalinguagem poderosa com uma construção narrativa densa e inquietante; uma ousadia que pouco se vê no entediante e monotônico cinema contemporâneo, povoado por variações sobre a mesma coisa, lugares comuns e fórmulas prontas.  

Bi Gan se detém num dos principais mistérios do cinema: o ponto de vista, não apenas como uma gramática, mas como algo que fundamenta o cinema desde o seu início. O criador e a criatura são o fazer cinematográfico, a história do cinema, traduzida de forma poética, por alguém que visivelmente ama seu ofício, um filme que mistura romance com sci-fi de forma bastante original.  

sábado, 25 de outubro de 2025

Seis dias naquela Primavera - Belo filme de Joachim Lafosse é representação relevante sobre preconceito e a delimitação de territórios em retrato sensível de relacionamentos e vínculos familiares.



 

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O belga Joachim Lafosse, conhecido pelos retratos de “conflitos familiares”, talvez tenha tido mais projeção com o premiado Propriedade Privada (2006), estrelado por Isabelle Huppert, ou Private Lessons (2008). Em Seis dias naquela primavera (2025), Lafosse parece adquirir uma abordagem mais despretensiosa e certo minimalismo dramático, já esboçado em O Silêncio (2023), mas elevado a um novo patamar.

            A beleza do filme de Lafosse, na minha opinião pouco comentado ou reconhecido (apesar de ter ganho o Festival de San Sebastián), se estabelece nas pequenas interações do cotidiano. Nesse contexto, a habilidade pela qual a história expõe o racismo, a delimitação dos territórios e a exclusão social é interessante: aqui também há um “segredo”, como em outros filmes do diretor belga, que permanece como um não-dito, próximo ao tabu social.

            A história trata de uma mãe solteira que leva os filhos para um pomposo condomínio na Riviera francesa de seus ex-sogros, lugar reservado ao luxo e ao dinheiro. Ela trabalha como cozinheira, motivo pelo qual nem sempre pode vigiá-los, o que acaba por resultar em diversos conflitos. Da mesma forma, existe o fato de que seu relacionamento com o professor dos meninos gera uma série de desdobramentos (pelo fato de ela ser uma mulher negra e ele branco), em diferentes “status” sociais.

             Se a carga dos conflitos familiares de outros filmes encontra-se dissipada, Seis dias naquela primavera (2025) funciona quase como uma crônica, uma representação delimitada no tempo que aposta nas interações simbólicas entre mãe e filhos. Nesse sentido, se alguns elementos da história e da trama “tradicional” não tão presentes, por outro lado é nas interações e nos sentimentos, bem como na forma pela qual câmera transita (ou não) por esses territórios, que residem algumas das qualidades de Seis dias naquela primavera (2025).

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Olívia - Filme Argentino é representação poética da jornada de jovem garota em busca do pai: uma história sobre luto carregada e cheia de metáforas

 

 

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            Ser jogado a esmo nos confins de um pueblo no interior da Argentina, descampado e inóspito, numa atmosfera densa e onírica: é mais ou menos assim que surge Olívia, poético filme argentino de Sofía Petersen, para o espectador.  Há um clima lúgubre e pesado, de abandono, e em certo sentido melancólico, moldado por uma iluminação densa que ressalta as silhuetas. São quasi-fantasmagorias que transitam em meio a paisagens inóspitas, ventanias entre o amanhecer e o anoitecer, crepúsculo de uma temporalidade que fica entre, na fronteira, no limiar.

            A sensação é que o dia ou a noite nunca chegam e há um clima de inquietação, desconforto. Olívia, interpretada por Tina Sconochini, está sentada à mesa e chama o seu pai mais de uma vez; ele mal responde, e o silêncio carrega o ambiente do filme. Logo percebe-se que há algo estranho, seja na melancolia pela qual se estabelece a relação entre pai e filha, seja nas referências desconfortantes pensadas na sutileza dos planos detalhe e trabalhadas pela direção de arte.

            Por outro lado, há uma violência inaudita e inquietante que atravessa os confins das montanhas nos sons do gado pronto para o abate: é lá, onde o pai de Olívia trabalhava, que a jornada de busca da menina vai encontrar seu ápice. No mesmo local onde encontra a personagem de Carolina Tejeda, com quem tem certa ligação.  

 


 

 

            É louvável a empreitada do filme e sua concepção estético-narrativa, seu ritmo cadenciado e temporalidade estendida, assim como a busca por texturas e contrastes numa riqueza visual. Mesmo que o espectador desavisado não esteja acostumado com o ritmo, a temporalidade e a pesada iluminação do filme, a combinação de tudo não deixa de ser corajosa.          

            A sutileza e as metáforas funcionam muitas vezes, e fazem de Olívia um belo filme – sem medo de mergulhar nessa proposta estético-narrativa. Soma-se isso as cicatrizes da protagonista (pesadas mas representativas), e também o trabalho de luto, uma travessia que partilha com os outros personagens.  

 

 


 O filme ainda está em cartaz na Mostra Internacional de São Paulo. 

 

Arrojado sin rumbo a los confines de un pueblo en la campiña argentina, árido e inhóspito, en una atmósfera densa y onírica: así es más o menos como Olivia, la poética película argentina de Sofía Petersen, se presenta al espectador. Hay una atmósfera sombría y pesada, de abandono, y en cierto sentido melancólica, moldeada por una densa iluminación que resalta las siluetas. Son casi fantasmagorías que se mueven por paisajes inhóspitos, vientos que soplan entre el amanecer y el anochecer, el crepúsculo de una temporalidad que yace entre, en la frontera, en el umbral. La sensación es que el día o la noche nunca llegan, y hay un aire de inquietud e incomodidad. 

Olivia, interpretada por Tina Sconochini, sentada a la mesa y llama a su padre más de una vez; él apenas responde, y el silencio impregna la atmósfera de la película. Es evidente de inmediato que algo no cuadra, ya sea en la melancolía que establece la relación padre-hija o en las referencias incómodas, concebidas a través de la sutileza de los primeros planos y elaboradas por la dirección de arte. Por otro lado, hay una violencia inaudita e inquietante que impregna las profundas profundidades de los sonidos del ganado listo para el matadero: es allí, donde trabajaba el padre de Olivia, donde la búsqueda de la niña alcanza su clímax. Es en el mismo lugar donde se encuentra con el personaje de Carolina Tejeda, con quien siente una cierta conexión. 

El esfuerzo de la película y su concepción estético-narrativa, su ritmo mesurado y su temporalidad prolongada, así como su búsqueda de texturas y contrastes en una rica experiencia visual, son encomiables. Incluso si el espectador no iniciado no está acostumbrado al ritmo, la temporalidad y la iluminación intensa de la película, la combinación es, no obstante, valiente. La sutileza y las metáforas funcionan a menudo, haciendo de Olivia una película hermosa, sin miedo a ahondar en esta propuesta estético-narrativa. Todo esto contribuye a profundizar en las cicatrices de la protagonista (graves pero representativas), así como en el proceso de duelo, un viaje que comparte con los demás personajes. 

sábado, 18 de outubro de 2025

Christy – Longa de estreia do irlandês Brendan Canty, Christy é olhar sensível sobre conflitos familiares e vínculos comunitários diante do esfacelamento social

 

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O estilo mais “naturalista” proposto em Christy, primeiro longa do irlandês Brendan Canty, carrega de simbolismo os vínculos comunitários e os conflitos familiares de um “cabeleireiro” que começa a dividir o teto com o seu irmão mais velho, após sair de um abrigo de assistência social. As interações e os diálogos fluem de forma constante numa câmera muitas vezes distanciada; abordagem característica de muito do cinema irlandês.

É nessa proposta que a comunidade ganha destaque, seja nos conflitos entre grupos, seja nos reencontros entre famílias esfaceladas. A crise do comunitário representa não apenas o ambiente onde estão inseridos, mas também sequelas de um abandono decorrente do estado social, do vínculo societário e do desemprego.  

Christy é um sujeito que volta para a casa depois do falecimento de sua mãe e do nascimento do filho de seu irmão, que mora com a esposa. Há um certo desamparo na sua figura, pois deve se provar para adquirir status na comunidade: e é aí que as habilidades de Christy como cabeleireiro começam a mudar a sua situação. De alguém “desacreditado”, ele passa a ser procurado e ganha um "emprego" na sala de cabeleireiros de sua tia.

Longe de ser uma caricatura melodramática ou exagerada sobre a herança mãe-filho, Christy mantém um estilo sóbrio, permitindo ao espectador um engajamento gradual com os conflitos. Um dos pontos altos do filme são os “improvisos” nas festas da comunidade, que misturam música, declamações em forma de rap ou Hip Hop, e destacam atores em sua espontaneidade.  

 

The more "naturalistic" style proposed in Christy, the debut feature by Irish director Brendan Canty, symbolically conveys the community ties and family conflicts of a "hairdresser" who begins to share a roof with his older brother after leaving a social welfare shelter. The interactions and dialogues flow steadily in an often distant camera—a characteristic approach of much Irish cinema. 

 It is in this approach that the community gains prominence, whether in the conflicts between groups or in the reunions between fractured families. And here, the community represents not only the environment in which they live, but also the aftermath of abandonment resulting from the crisis of the welfare state, social bonds, and unemployment. Christy is a man who returns home after the death of his mother and the birth of his brother's son, who lives with his wife.  

There is a certain helplessness in his character, as he must prove himself to gain status in the community: and this is where Christy's skills as a hairdresser begin to change his situation. From someone "discredited," he becomes sought after and lands a job at his aunt's salon. 

Far from being a melodramatic or exaggerated caricature of mother-son heritage, Christy maintains a sober style, allowing the viewer to gradually engage with the conflicts. One of the film's highlights is the "improvisations" at the community parties, which mix music, rap, or hip-hop recitations, and highlight the actors' spontaneity.

 

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Paul Thomas Anderson, um filme depois do outro: sequelas de um ideário

 


Paul Thomas Anderson já adquiriu um estilo um tanto consolidado. É impossível não associar o personagem interpretado por Leonardo diCaprio (Bob Ferguson), no seu novo longa-metragem Uma batalha após a outra, ao irônico Hippie setentista deslocado, um “investigador” que foge a qualquer imagem que possamos ter de romance policial ou investigativo, já presente em Vício Inerente, na figura de Joaquim Phoenix (Lary Sportello). Em Uma batalha..., entretanto, a ambição de Anderson é maior, pois a passagem temporal acontece de fato: o filme transita entre os anos 70 e a atualidade destacando mudanças e choques de costumes e hábitos.

             A questão geracional, bem como sua herança, está vinculada não apenas ao deslocamento, mas a uma insatisfação contestatória, que acaba afetando o romance do casal principal. Assim como em Sangue Negro (e pode-se dizer em O Mestre), uma história fundacional, Uma batalha... reflete sobre crenças e radicalismos, nesse caso na figura emblemática do personagem de Sean Penn (Steven J. Lockjaw), um militar americano, em confronto com o idealismo de um grupo revolucionário guerrilheiro chamado French 75.  O amor não realizado, aqui, se vincula diretamente a um ideário que deixou suas sequelas (literalmente no personagem principal).

             Encontra-se presente, em Uma batalha..., a mesma ironia que Anderson busca para subverter os gêneros. Do western ao filme de assalto, o diretor se apropria de elementos para contar uma história sobre uma família nada casual, desmembrada pela partida da mãe, interpretada por Teyana Taylor (Perfídia). Uma batalha... busca a dinâmica disfuncional de um filme sobre um grupo revolucionário, com o seu ideal, mas que “mudou”, enfrentou suas próprias contradições.

             A sequência final, de construção quase hipnótica, é um dos pontos altos de um filme, que, no final das contas, reflete sobre legados. Mesmo com alguns problemas relativos à construção da história, na dinâmica temporal e dos conflitos no que se refere à amarração com o social (excessivamente ambiciosa, o que deixa um tanto rasa, ou truncada, como em outros filmes de PTA), os momentos nos quais podemos ver o diretor construir a sua ácida crítica e o cômico comentário sobre as relações e padrões normativos acabam por valer a pena. 
 
 
 
    Paul Thomas Anderson has already acquired a somewhat established style. It's impossible not to associate the character played by Leonardo diCaprio (Bob Ferguson) in his new feature film, "One battle after another," with the ironic, displaced seventies hippie, an "investigator" who defies any image we might have of a detective novel, already present in "Inherent Vice," in the figure of Joaquim Phoenix (Lary Sportello). In "The Battle...," however, Anderson's ambition is greater, as the time jump actually occurs: the film moves between the 1970s and the present day, highlighting changes and clashes in customs and habits. 
 
    The generational issue, as well as its legacy, is linked not only to displacement but also to a contested dissatisfaction, which ultimately affects the romance of the main couple. Just as in There Will Be Blood (and one could say in The Master), a foundational story, A Battle... reflects on beliefs and radicalism, in this case through the emblematic figure of Sean Penn's character (Steven J. Lockjaw), an American soldier, confronting the idealism of a revolutionary guerrilla group called French 75. Unfulfilled love, here, is directly linked to an ideology that has left its mark (literally on the main character). 
 
    In A Battle..., the same irony that Anderson seeks to subvert genres is present. From the Western to the heist film, the director appropriates elements to tell a story about a far-from-casual family, torn apart by the departure of the mother, played by Teyana Taylor (Perfídia). A Battle... works within the dysfunctional dynamics of a film about a revolutionary group, with its ideals, but which has "changed," facing its own contradictions.
 
  The final sequence, almost hypnotically constructed, is one of the highlights of a film that, ultimately, reflects on legacy. Even with some problems related to the construction of the story, in the temporal dynamics and conflicts in terms of the connection with the social (excessively ambitious, which leaves it somewhat shallow, or truncated, as in other PTA films), the moments in which we can see the director construct his acid criticism and comical commentary on relationships and normative standards end up being worth it.