segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A arte e a cidade

A 8 Bienal, que acontece em POA, trata exatamente da territorialidade, tema ao qual dedico boa parte dos meus atuais estudos e escritos.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

A história de um aspirante ao posto de estátua

Foi publicado na época no site da revista Paiuí: A história de um aspirante ao posto de estátua




“Ps. espero desta vez receber algum retorno, pois é a décima carta que mando só esta semana”. Com sua caneta no fim da tinta, tem que riscar várias vezes para traçar as letras. Sentado em sua escrivaninha de madeira infestada por cupins, admira o papel várias vezes para checar se tudo estava de acordo. Todo o dia ia ao correio depositar a carta pontualmente às dez da manhã. O referido escritor, um jornalista desempregado, depois da montagem fracassada de “O último escrúpulo”, recebera críticas arrasadoras e que lhe martelavam os pensamentos.
Pela tarde saia de casa, pegava um ônibus e ia admirar o lugar em que sempre sonhou estar: o Museu de cera Madame Tussauds. Ficava horas olhando para o lugar e se imaginando entre as grandes celebridades. Chegava mais perto só para sentir o clima, olhava a fila, mas não tinha dinheiro pra entrar. Parado na calçada ele se imaginava entre Penélope Cruz e Woopy Goldberg. A divagação logo era interrompida pelo pesadelo de seu desalento, fazendo-o fugir para o Pub mais próximo. Conhecido pelos atendentes por suas bebedeiras, era saudado calorosamente na entrada: “o de sempre?”, perguntavam. Cambaleante, ele saia do Pub, procurando o telefone mais próximo para ligar para o museu; sem sucesso, evidentemente pelo horário. Chegava em casa e desabava na cama.
Tal rotina completava quase um ano quando decidira não sair da frente do museu enquanto não entrasse. Pela manhã toma a condução para o local. Chegando lá, como todo o fim de semana, a movimentação é intensa. Causando revolta geral ele ultrapassa todos e se dirige ao atendente. Os protestos das pessoas que estão à espera aumentam e o ator decide sair antes que o funcionário chame a segurança.
Sem sucesso em seu último intento, decide ir para sua dose alcoólica diária, porém pára no meio do caminho. Decide fazer o que tem em mente sóbrio, e não via melhor hora para o fazer. Dando meia volta, caminha um longo trecho até chegar em casa. Na caminhada não tem pressa, olha bem para a cidade no trajeto. Em casa, no quinto andar de uma rua relativamente movimentada, ele fita por um bom tempo todos os cômodos. Na sacada, admira a vista. Toma coragem. Sobe no parapeito e fecha os olhos para evitar vertigem. De súbito se atira. A multidão que se aglomera aos burburinhos em volta do corpo estirado no meio da rua impede que qualquer um escute o tocar do telefone na casa. A secretária eletrônica atende: “bom dia, recebemos várias de suas cartas e gostaríamos de conversar com o senhor sobre a possibilidade atender seu pedido. Estamos aumentando nosso acervo e gostaríamos de contar com você nesse processo”. O convite para virar estátua no Madame Tussauds lhe chegou em boa hora.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

quarta-feira, 18 de maio de 2011

É o velho ou o novo Woody Allen?



Quem assiste ao filme de Woody Allen, Whatever Works, pode notar algumas características e chegar a conclusão de que ele voltou as suas origens. Existe, por exemplo, como evidente o fato de ter voltado a filmar em Nova York, cidade a qual os filmes dele são muitas vezes associados. É verdade que muitas vezes o diretor retratou os tipos e os bairros da cidade criando uma atmosfera particular. Outro fator para o espectador chegar a esta conclusão é o personagem principal: um tipo cheio de manias, irônico, reclamão e com ares de genialidade (no filme é considerado como um gênio). Ele ainda se apaixona por uma mulher bem mais jovem (assim como Allen em seu clássico Manhattan). Este personagem seria então a figura do Woody Allen sendo interpretada por outro ator, coisa que ele faz em cada filme. Outro lugar comum.


Fora o fato de filmar em Nova York, ele pouco volta as suas origens por alguns fatores. Primeiro que alguns elementos clássicos de Allen não estão neste filme. Cito apenas alguns: a ironia com o fato de ser judeu ou dirigida a uma classe emergente dos Estados Unidos. Outra abordagem constante em seus filmes é a relação com o crime. E, a meu ver, um dos maiores qualificativos dos filmes do diretor: a cidade não só como cenário, mas como personagem importante do filme.
Destes fatores muito pouco se vê neste filme, que se torna quase um monólogo do personagem principal, figura que lembra um pouco os personagens de Allen, mas ao mesmo tempo é carregado de um mau humor. Falta a ele a ironia com ele mesmo, típica dos personagens interpretados pelo diretor. O mau humor do personagem de Whatever Works se transforma até em arrogância, o que transparece na forma pela qual Larry David interpreta o personagem.
Claro que Woody Allen não ia deixar de trazer elementos que lhe são característicos. O texto, por exemplo, apesar de conter um humor não tão escrachado, guarda as velhas tiradas que o consagraram. A interação com a plateia (outro fator que ele traz de Annie Hall, em que o personagem interpretado por Woody Allen constantemente fala com a câmera). Em Whatever Works, a interação ganha tons confessionais. Logo no início o personagem principal já quebra o “pacto”, como se fosse uma espécie de compartilhamento entre ele e a plateia (nós), ou um segredo. Talvez uma clarividência do personagem principal, na medida em que só ele vê a platéia, aumentado a sua condição de maluquice diante dos outros personagens do filme.
O que vale a pena no filme então são os diálogos e as invenções de Woody Allen, que mesmo quando não volta para a comédia repetindo seus melhores filmes, ainda consegue contar a história de forma interessante. Uma história de amor construída pelos antagonismos característicos dos filmes do diretor, o desejo e suas idiossincrasias.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Fim do cinema ou da cinefilia?



Depois de participar do Cineesquemanovo e presenciar palestras e discussões sobre cinema, uma questão permaneceu: a cinefilia ou o próprio cinema estão em estado final? Tal inquietação surgiu algumas vezes no festival.
Ao que parece, as previsões catastróficas sobre o fim do cinema e da cinefilia estão longe de se concretizar. Isso pelo simples fato de que o cinema, apesar de ter se modificado, ainda continua a aglutinar centenas de adeptos e apaixonados seguidores.
É bem verdade, e por isso existem visões aterradoras, que a relação do público com as salas de cinema não é mesma, e talvez ela venha perdendo status. Dentre outros motivos, está o fato de que a experiência coletiva do cinema está se pulverizando. Podemos pensar que a paixão pelo cinema está cada vez mais individual ou restrita a um grupo?
A discussão segue e especialmente se considerarmos a história do cinema. Refiro-me à atmosfera da França pós-guerra, em que o cinema foi considerado em seu “auge”. Temos que constatar, então, para efeitos de análise, as transformações advindas da atual “sociedade de informação” ou “sociedade do conhecimento”, para que não caiamos em uma total nostalgia.
Existe ainda, como questão a ser pensada, uma ojeriza ou um total repúdio aos Estados Unidos e toda produção que venha de lá. O anti-americanismo gera algo como uma supervalorização ou veneração ao cinema europeu, em um confronto histórico entre EUA x Europa, especialmente França. Confronto que foi ironizado por Woody Allen no filme “Dirigindo no escuro”. O contrário também é verdadeiro, e o filme europeu muitas vezes é estereotipado como hermético.
Por fim, e talvez o mais importante, existe o fato de que a cultura pouco é incentivada e não está no cotidiano das pessoas. Os esforços devem ser redobrados para melhorar o acesso à cultura, que é muito restrito, também em razão do preço inacessível dos produtos culturais tendo em vista a situação econômica do Brasil.

quarta-feira, 23 de março de 2011

As crônicas de Manuel Bandeira: Lasar Segall



Depois de algum tempo sem atualizar o blog, volto para escrever sobre o livro que estou lendo: as crônicas de Manuel Bandeira.
No capítulo sobre Segall, Bandeira traz uma leitura que contextualiza bem o que acontecia no Rio de Janeiro nos tempos que se sucederam à semana de 22. A novidade na cidade era a pintura, e as exposições que se proliferavam. Havia uma grande movimentação e expectativa.
Tudo, claro, aliado ao modernismo, empolgação nacionalista que vinha na carona desse movimento. Manuel Bandeira não foge a isso, e nos traz a estética que carrega o modernismo no Brasil. Junto com uma negação dos padrões academicistas, o "modernismo" trouxe o nacionalismo e uma exaltação do povo, simbolizando uma ideia de "brasilidade".
Também está claro no texto sobre Segall o quanto o movimento nacional estava contido na ideia do modernista, a par da proposta estética, especialmente em uma série de artistas que propunham uma arte "nacional", moderna.
Nas palavras de Bandeira, Segall, na sua mudança para o Brasil, não apenas se abrasileirou, se aclimatou, como também melhorou sua arte, livrou-se de "todas as tristezas" e das cores tristes da fase europeia.
No final das contas, o texto é um registro importante sobre uma fase em que o Rio de Janeiro fervilhava no aspecto cultural, e que a "revolução" por meio da arte parecia ao alcance.