quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Jovens mães – filme dos Dardenne desmistifica ideal da maternidade e dimensiona abandono de jovens, "unidas" em sua falta de suporte



 


                                   foto divulgação

 

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Os personagens dos Dardenne transparecem uma urgência, uma “corrida” na busca por identidade, reconhecimento, na fuga de uma situação precária e/ou de um ambiente degradante. Jovens Mães (2025) retoma as abordagens de A Criança (2005), com a diferença de se concentrar na jornada coletiva, pois a trama sai de um caso individual para contar algumas histórias que se encontram no tema da maternidade e do abandono. 

            Logo na cena inicial, a filha (futura mãe) espera a mãe no ponto de ônibus. É uma metáfora poderosa para a busca das jovens por reconhecimento, por reparação de um abandono exposto agora na transmissão para o futuro. Há, em Jovens Mães, uma forma impactante de representar essa falta de perspectiva para seus filhos, contida na urgência, na batalha por uma vida melhor, nas partilhas entre as personagens.  

            Com algumas questões narrativas um tanto truncadas, um drama às vezes não tão desenvolvido, Jovens Mães tem o mérito de enfatizar a potência da partilha na precariedade da transmissão. São jovens que têm uma responsabilidade precoce, sequer resolveram coisas da adolescência, buscam ainda sua própria história e são jogadas solitárias nessa situação de eminente maternidade.
 
 
    The Dardenne brothers' characters convey an urgency, a "race" in the search for identity, recognition, and escape from a precarious situation and/or a degrading environment. Young Mothers (2025) revisits the approaches of The Child (2005), with the difference of focusing on the collective journey, as the plot moves from an individual case to tell several stories that converge on the theme of motherhood and abandonment. 
    Right in the opening scene, the daughter (future mother) waits for her mother at the bus stop. It is a powerful metaphor for the young women's search for recognition, for reparation for an abandonment now exposed in the transmission to the future. In Young Mothers, there is an impactful way of representing this lack of perspective for their children, contained in the urgency, in the battle for a better life, in the sharing between the characters. 
    With some truncated narrative issues, and a drama that is sometimes not so developed, Young Mothers has the merit of emphasizing the power of sharing in the precariousness of transmission. These are young people who have a premature responsibility, haven't even resolved issues from adolescence, are still searching for their own path, and are thrown alone into this situation of imminent motherhood. 

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Ressurreição – Bi Gan devolve a magia ao cinema em filme denso e poético

                                                                    foto divulgação
 

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Passaram-se cerca de 105 anos desde que O Gabinete do Dr. Caligari levou para a tela criador/criatura, num dos maiores clássicos do expressionismo alemão. Tendo como referência o cinema mudo, Ressurreição reconstrói a história do cinema por meio do filme de rara qualidade e beleza. Não que a metalinguagem seja algo novo, muito pelo contrário, mas a maestria pela qual Bi Gan transita entre as referências de forma alegórica e potente, compõe um quadro pouco visto no cinema desses últimos anos.

Há uma dose de experimentalismo na história de Ressurreição, uma mistura de Yasujiro Ozu com Akira Kurosawa, em jornada existencialista, de poesia potente e de ficção científica desafiadora. Bi Gan, nesse sentido, consegue aliar uma metalinguagem poderosa com uma construção narrativa densa e inquietante; uma ousadia que pouco se vê no entediante e monotônico cinema contemporâneo, povoado por variações sobre a mesma coisa, lugares comuns e fórmulas prontas.  

Bi Gan se detém num dos principais mistérios do cinema: o ponto de vista, não apenas como uma gramática, mas como algo que fundamenta o cinema desde o seu início. O criador e a criatura são o fazer cinematográfico, a história do cinema, traduzida de forma poética, por alguém que visivelmente ama seu ofício, um filme que mistura romance com sci-fi de forma bastante original.  

sábado, 25 de outubro de 2025

Seis dias naquela Primavera - Belo filme de Joachim Lafosse é representação relevante sobre preconceito e a delimitação de territórios em retrato sensível de relacionamentos e vínculos familiares.



 

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O belga Joachim Lafosse, conhecido pelos retratos de “conflitos familiares”, talvez tenha tido mais projeção com o premiado Propriedade Privada (2006), estrelado por Isabelle Huppert, ou Private Lessons (2008). Em Seis dias naquela primavera (2025), Lafosse parece adquirir uma abordagem mais despretensiosa e certo minimalismo dramático, já esboçado em O Silêncio (2023), mas elevado a um novo patamar.

            A beleza do filme de Lafosse, na minha opinião pouco comentado ou reconhecido (apesar de ter ganho o Festival de San Sebastián), se estabelece nas pequenas interações do cotidiano. Nesse contexto, a habilidade pela qual a história expõe o racismo, a delimitação dos territórios e a exclusão social é interessante: aqui também há um “segredo”, como em outros filmes do diretor belga, que permanece como um não-dito, próximo ao tabu social.

            A história trata de uma mãe solteira que leva os filhos para um pomposo condomínio na Riviera francesa de seus ex-sogros, lugar reservado ao luxo e ao dinheiro. Ela trabalha como cozinheira, motivo pelo qual nem sempre pode vigiá-los, o que acaba por resultar em diversos conflitos. Da mesma forma, existe o fato de que seu relacionamento com o professor dos meninos gera uma série de desdobramentos (pelo fato de ela ser uma mulher negra e ele branco), em diferentes “status” sociais.

             Se a carga dos conflitos familiares de outros filmes encontra-se dissipada, Seis dias naquela primavera (2025) funciona quase como uma crônica, uma representação delimitada no tempo que aposta nas interações simbólicas entre mãe e filhos. Nesse sentido, se alguns elementos da história e da trama “tradicional” não tão presentes, por outro lado é nas interações e nos sentimentos, bem como na forma pela qual câmera transita (ou não) por esses territórios, que residem algumas das qualidades de Seis dias naquela primavera (2025).