segunda-feira, 6 de abril de 2026

Cronologia da água, estreia de Kirsten Stewart na direção, é drama intimista pesado sobre relação entre memória e biografia


 

                                                                                                foto divulgação

 

O relato em primeira pessoa composto por fragmentos é um recurso próprio ao filme intimista determinado a tratar sobre o papel da memória na reconstrução de acontecimentos, como é o caso de Cronologia da Água, de Kirsten Stewart, sua estreia na direção. O longa conta o drama da personagem, Lídia, uma aspirante à nadadora que encontra na literatura o seu meio de expressão e “mergulha” nas marcas de violência que perpassam a pré-adolescência da personagem para, posteriormente, "submergir" na sua vida adulta. Trauma e escrita. 

 Cronologia da água é inspirado na biografia da escritora Lydia Yuknavitch, nascida na Califórnia e autora do livro que dá título ao filme, ela tentou a carreira de nadadora, mas o vício em drogas acabou precocemente com o seu sonho. No filme de Stewart, a dimensão traumática da história de Lídia ganha contornos aos poucos pela proposta fragmentária, pelas marcas de violências, mesmo que de forma irregular, por vezes sem muita direção. Por outro lado, o ponto de vista subjetivo, como base do drama psicológico, potencializa o caráter um tanto ensaístico do início da história em seu teor poético. 

Além da boa atuação da protagonista, Imogen Poots, o filme tem como ponto alto a participação de Jim Belushi - alívio cômico diante do desfile de tragédias da história. Fica claro que Stewart quer enfatizar os traumas vividos pela personagem, bem como os rastros na vivência de Lidia e no seu processo de criação literário. A Cronologia da Água começa apostando na subjetividade como um fator decisivo para a criação da narrativa; mas, aos poucos, parece abandonar essa proposta se distanciando da personagem para mostrar mais suas ações. É então que a história de superação aparece.

        A relevância do longa de Stewart reside justamente na temática tratada como uma espécie de crônica pessoal. Assim, o resultado é um filme que encontra seu impacto pela fotografia, pela aposta no relato em primeira pessoa, numa narrativa que busca abordar o limite entre memória e biografia.

 

The first-person narrative, composed of fragments, is a characteristic of intimate films aimed at exploring the role of memory in reconstructing events, as is the case with *Chronology of Water*, Kirsten Stewart's directorial debut. The film tells the story of Lydia, an aspiring swimmer who finds expression in literature and "dives" into the marks of violence that permeate her pre-adolescence, later "submerging" into her adult life. Trauma and writing. 
 
 *Chronology of Water* is inspired by the biography of writer Lydia Yuknavitch, born in California and author of the book that gives the film its title. She attempted a career as a swimmer, but drug addiction prematurely ended her dream. In Stewart's film, the traumatic dimension of Lydia's story gradually takes shape through the fragmented approach, through the marks of violence, even if irregularly, sometimes without much direction. On the other hand, the subjective point of view, as the basis of the psychological drama, enhances the somewhat essayistic character of the beginning of the story in its poetic tone. 
 
Besides the good performance of the protagonist, Imogen Poots, the film's highlight is the participation of Jim Belushi – comic relief amidst the parade of tragedies in the story. It becomes clear that Stewart wants to emphasize the traumas experienced by the character, as well as the traces in Lidia's life and in her literary creation process. *The Chronology of Water* begins by betting on subjectivity as a decisive factor in the creation of the narrative; but, little by little, it seems to abandon this approach, distancing itself from the character to show more of her actions. It is then that the story of overcoming adversity appears. 
 
The relevance of Stewart's film lies precisely in the theme treated as a kind of personal chronicle. Thus, the result is a film that finds its impact through its cinematography, its reliance on first-person narration, in a narrative that seeks to address the boundary between memory and biography. 

 

 

segunda-feira, 16 de março de 2026

A Mensageira, de Iván Fund, aborda o limite entre a fantasia e o real ao contar história de “menina que conversa com os animais”


                                                                                         fotos divulgação

Vencedor do urso de prata no Festival de Berlim, A Mensageira, de Iván Fund, busca um realismo de viés lúdico, ou fantástico, ao representar a história de uma menina que “conversa com animais” e seus tutores. Eles percorrem o interior da Argentina numa van, abordando clientes e virando-se para explorar os “dons” da menina. Terreno já explorado por Fund, o realismo de A Mensageira tem um estilo observacional e a escolha do preto e branco é acompanhada por um olhar singelo, mas que não deixa de ter certa ironia.

A Mensageira funciona como um filme de estrada alternando o convívio entre os três com as estratégias do casal para lucrar com Anika (Anika Bootz) e as consultas mediúnicas a donos de pets. Em diversas situações, são negociados os serviços e “montada a divulgação” principalmente por Myriam (Mara Bestelli), tendo como pano de fundo as paisagens do interior argentino.  

 O resultado é um filme que procura o simples. Já o realismo proposto funciona em partes, e a narrativa parece meio vaga na sua construção. Por um lado, a Mensageira tem a sua beleza, por outro, seu tom observacional e seu ritmo podem causar estranhamento a quem está acostumado com o frenético cinema de ação. Os personagens se integram a paisagem, e o tom lúdico surge com a fantasia da infância.

 



 

sexta-feira, 6 de março de 2026

Minha Querida Família, novo longa da francesa Isild Le Besco, trata de conflitos em retrato sensível, e ao mesmo tempo mordaz, das relações familiares

 foto divulgação

 

 

            Minha Querida Família, novo longa da francesa Isild Le Besco, trata de conflitos em retrato sensível, e ao mesmo tempo mordaz, das relações familiares

       O novo filme da atriz e diretora francesa Isid Le Besco, Minha Querida Familia, é centrado numa reunião familiar e traz figuras icônicas como Marisa Berenson, a “matriarca da família”, a vencedora de Cannes, Élodie Bouchez, além do britânico Sam Spruell. Minha Querida Família alterna momentos mais intimistas e partilhas para abordar marcas daquela família, com suas diferenças e desavenças.  

   Em Minha Querida Familia, Le Besco transita entre os personagens com uma câmera dinâmica, dando destaque para o relacionamento turbulento de Estelle (Élodie Bouchez). É ela que sofre um arco mais detalhado em meio ao encontro dos familiares, com momentos mais intimistas e amorosos. Ao chegar com seus filhos na casa da matriarca, Queen (Marisa Bereson), Estelle entra na dinâmica de suas irmãs e suas discussões, o que traz à tona antigos traumas e picuinhas entre os personagens. Assim, a trama permite conhecer um pouco sobre suas motivações e desejos, o que leva a uma aproximação maior com o universo deles.  

Dentro desse contexto, Minha Querida Familia se propõe a tratar, mesmo que de forma breve, de uma espécie de implosão no núcleo familiar, reunido depois de anos e diante da “volta do passado” constituída pela chegada do filho mais novo, Marc (Axel Granbenger) e sua namorada, que trazem as cinzas do pai e manifestam o desejo dele de jogar ao mar. Nesse momento, a questão do pai da família vem à tona, causando revolta entre as irmãs e uma discussão entre os familiares. Queen se incomoda por acreditar que ele, mesmo morto, está “roubando o seu momento”. As crianças também têm o seu momento e, seja nos momentos lúdicos, seja quando reviram as coisas de Queen: elas acabam sendo um ponto de conflito entre membros da família.  

      Para Estelle, o reencontro com a família e conhecidos aponta um movimento positivo; pois, embora relutante, reaproxima-se de um antigo interesse amoroso, William (Sam Spruell). Ela então está decidida a livrar-se do antigo casamento tóxico, mesmo diante de insistência de Antonio (Steffani Casseti)

   Por tratar dessa dinâmica familiar com momentos de introspecção, que reelaboram o passado trazendo novas soluções para o presente, Minha Querida Família tem méritos na sua construção (embora pudesse explorar mais esse aspecto). A presença de atores celebrados entrega alguma consistência nas atuações, boas dinâmicas e carrega o envolvimento do espectador com os personagens.