É sempre divertido ver como Almodóvar utiliza referências de teor “autobiográfico”, também denominado autoficção, mesmo quando não se trata dos seus melhores trabalhos. Natal Amargo reflete sobre a própria criação artística de Almodóvar e seus dilemas; o que, para quem é familiarizado ao universo almodovariano, não é nenhuma novidade. O “alter ego” do diretor, bem explicitado, assim como já foi Antônio Bandeiras, agora é interpretado por Leonardo Sbaraglia (Raul), um escritor em “crise criativa”, que busca inspiração em aspectos da sua vida.
O termo clichê “a vida se confunde com a arte” aparece
como um motor da trama de Natal Amargo; produção que retoma certo humor
mais escrachado, embora ainda muito contido, destacado nos filmes iniciais de
tragicomédia kitsch. Natal Amargo seria demasiado um “exercício
narcisista” não fosse os méritos criativos, embora vez que outra numa trama
meio truncada e dedicada à metalinguagem, com temas que já foram melhor explorados
em produções anteriores, como a perda, o luto, relacionamento amoroso, o
complexo edipiano e a escrita.
Uma surpresa para quem está
acostumado com as colaboradoras tradicionais do diretor espanhol é a presença
de Bárbara Lennie, que ganhou notoriedade por filmes como A Garota do Fogo.
Sem caras conhecidas como Penélope Cruz, Celícia Roth ou Carmem Maura, sobra
para Rossy de Palma retornar ao universo almodovariano. Junto com essa velha
conhecida, repetem-se os elementos já consagrados para quem conhece a sua “estética”.
Em Natal Amargo, Almodóvar cria um jogo de espelhos no qual o artifício parece preponderar, pois a autorreferência não acrescenta muito à filmografia já bem consolidada do diretor. Por isso, para esse novo/velho Almodóvar, parece vir antes o cômico do que o amargo. Ou seria o meio amargo?
Ao explorar novamente a autoironia, a história flerta com o exagero kitsch, no bom sentido, próprio ao melodrama crítico de filmes como Mulheres à beira de um ataque de nervos. Não à toa ele próprio, na entrevista coletiva em Cannes, revelou saudades da sua fase inicial.
It's amusing to see how Almodóvar uses metalanguage and "autobiographical" elements, also known as autofiction, even when it's not his best work. Bitter Christmas reflects on Almodóvar's own artistic creation and its dilemmas; which, for those familiar with the Almodóvarian universe, is nothing new. The director's "alter ego," clearly defined, just as Antonio Banderas was, is now played by Leonardo Sbaraglia (Raul), a writer in a "creative crisis" who seeks inspiration in aspects of his life.
The cliché "life is confused with art" appears as a driving force in the plot of Bitter Christmas; a production that returns to a certain more outrageous, though still very restrained, humor, prominent in his early kitsch tragicomedy films. Bitter Christmas would be considered too much of a "narcissistic exercise" were it not for its creative merits, although occasionally the plot is somewhat truncated and dedicated to meta-language, with themes that have already been better explored in previous productions, such as loss, grief, romantic relationships, the Edipus complex, and writing.
A surprise, for those accustomed to the Spanish director's traditional collaborators, is the presence of Bárbara Lennie, who gained notoriety for films like The Girl of Fire. Without familiar faces like Penélope Cruz, Celia Roth, or Carmen Maura, Rossy de Palma returns to the Almodóvar universe. Along with this old acquaintance, the elements already established for those familiar with his "aesthetic" are repeated.
Thus, in Bitter Christmas, Almodóvar creates a game of mirrors in which artifice seems to predominate, as self-reference doesn't add much to the director's already well-established filmography. Therefore, for this new/old Almodóvar, it's more comical than bitter. Or would it be bittersweet?
This self-irony guides the story and flirts with kitsch exaggeration, in a good way, typical of the critical melodrama of films like Women on the Verge of a Nervous Breakdown. It's no coincidence that he himself, in the press conference at Cannes, revealed that he missed his early phase.


.jpg)

