"Uma coisa é certa, quando tivermos que fechar, não avisaremos ao público!”. Com essa frase categórica o proprietário de um pequeno espaço de cinema em Porto Alegre, Carlos Schimitt, responde aos que especulam sobre o encerramento das atividades diante da concorrência e da falta de estrutura diante das tecnologias. As salas fazem parte de um pequeno centro comercial, o Olaria que, em nada, lembra um shopping. Localizado em uma das ruas mais conhecidas da cidade, a Lima e Silva, o Guion se notabilizou por oferecer filmes fora dos blockbusters do circuito comercial e, por isso, não hollywoodianos.
Era preciso uma afirmação frente aos boatos de que o estabelecimento de Schmitt estaria em crise, e próximo do fechamento. Falência anunciada por um dos jornais locais, que chamou atenção para a dificuldade do negócio, que segundo as informações, sofria para atualizar-se diante do custo da perda de público. “De aniversário, Guion Center enfrenta rotina de movimento fraco e pode fechar”, afirmou a manchete. O texto do jornal ainda traz um depoimento da mulher de Carlos, Aiko Schmitt, que relembra os áureos tempos do cinema, em que podia colocar a placa de que tinham ingressos apenas para a próxima sessão.
Schimtt, desmente: “nosso
movimento de público não é ruim, o que é problemático é que 70% do nosso
público é composto por idosos e estudantes, e aí não existe fórmula mágica com
a redução em 50% no faturamento, cinema nacional etc”. É ele mesmo quem encontramos recebendo os tickets de quem vinha para
ao cinema no início da tarde de segunda feira. Apenas um senhor e duas adolescentes circulam pelo local, o que coincide com a reclamação sobre o público que, mesmo milionário,
continuaria a frequentar os cinemas com meia entrada.
Segundo o
governo federal, entretanto, estabelecimentos como o do Schimitt não precisam
mais se preocupar, pois ele lança o programa “O Brasil de todas as telas”.
Dentre os eixos previstos pelo programa está o “Programa Cinema Perto de Você”, que consiste em um conjunto de mecanismos voltados à abertura e modernização de
salas de cinema em todo o Brasil. O governo promete destinar 350 milhões em
investimento e crédito para a abertura de novas salas, digitalização do parque
exibidor e investimento do projeto Cinema da Cidade.
Em pronunciamento no dia do lançamento, a efusiva ministra
Marta Suplicy afirma que “outra coisa que vai ajudar muito é o fato da Ancine
abrir os canais financeiros de parceria para agentes sem operação estruturada a
partir dos mecanismos de financiamento público do audiovisual, ou seja,
programadoras, instituições de ensino e governos estaduais vão ter
financiamento que não tinham”. A preocupação vai exatamente ao encontro da
reclamação de Schimitt: “nosso espaço deveria ser estimulado
pelo governo, mas o foco da Ancine é todo na produção e não na exibição”.
De fato, a proliferação de lugares que investem em filmes
não-blockbuster vem acontecendo, e complicando a vida de espaços menores em Porto Alegre. Mesmo com as dificuldades, Schmitt garante: “Em termos técnicos (projeção e som) não há diferença entre as nossas
salas e os cinemas de shopping”. “Somos obrigados pelo governo a exibir 42 dias
(no ano anterior foi pior, 72 dias p/sala) por sala de filme nacional o
que dá 123 dias sem faturamento. Qual a contrapartida do governo. NENHUMA! Este ano de 2014 está sendo um ano para esquecer” desabafa.
Outro fator para a melhora do movimento no local pode ser a diminuição dos convescotes, reuniões de
carnaval e folias que atrapalham os amantes da sétima arte: “por questões de segurança nos obrigaram a fechar; depois vieram os
fechamentos de rua para blocos de carnaval, depois greve de ônibus, protestos
de rua,”. Quem mora no bairro sabe que não são
poucas as festas organizados na rua, fora os protestos, que muitas vezes
escolhem a Lima e Silva.
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