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Passaram-se cerca de 105 anos desde que O Gabinete do Dr. Caligari levou para a tela criador/criatura, num dos maiores clássicos do expressionismo alemão. Tendo como referência o cinema mudo, Ressurreição reconstrói a história do cinema por meio do filme de rara qualidade e beleza. Não que a metalinguagem seja algo novo, muito pelo contrário, mas a maestria pela qual Bi Gan transita entre as referências de forma alegórica e potente, compõe um quadro pouco visto no cinema desses últimos anos.
Há uma dose de experimentalismo na história de Ressurreição, uma mistura de Yasujiro Ozu com Akira Kurosawa, em jornada existencialista, de poesia potente e de ficção científica desafiadora. Bi Gan, nesse sentido, consegue aliar uma metalinguagem poderosa com uma construção narrativa densa e inquietante; uma ousadia que pouco se vê no entediante e monotônico cinema contemporâneo, povoado por variações sobre a mesma coisa, lugares comuns e fórmulas prontas.
Bi Gan se detém num dos principais mistérios do cinema: o ponto de vista, não apenas como uma gramática, mas como algo que fundamenta o cinema desde o seu início. O criador e a criatura são o fazer cinematográfico, a história do cinema, traduzida de forma poética, por alguém que visivelmente ama seu ofício, um filme que mistura romance com sci-fi de forma bastante original.

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