
Não poderia deixar de registrar aqui o impacto causado pelo filme Pro dia nascer feliz, de João Jardim. Na minha opinião talvez um dos melhores documentários brasileiros já produzidos. Saem os lugares comuns, clichês entre o bem e o mal, estilo Tropa de elite, e entram em cena elementos de uma realidade complexa, cheia de contrastes e abismos sociais. Está retratada no filme a juventude. Os sonhos, as esperanças e as perspectivas estão lado a lado, de forma crítica e que carrega a poesia própria a essa fase da vida.
Os personagens são figuras cativantes, e o filme consegue explorar bem seu universo. Conhecemos particularmente a história de uma menina que emociona pela sua simplicidade, mas ao mesmo tempo pelo seu talento, sua poesia. Não há nada de melancólico nela, muito pelo contrário. Há sim criatividade, lirismo e ao mesmo tempo disposição. E tudo isso nos chega contrastando com a sua realidade, o que deixa ainda mais clara a situação de abandono em que está o nordeste. Esta menina representa a poesia que falta para o mundo atual, nos lembra como a injustiça nos confronta, nos desafia, nos faz pensar. Como alguém pode viver em tal situação? Os professores, claro, desacreditam. Como alguém como ela pode fazer tais poemas? Criatividade não é bem vinda, lirismo também não. Vivemos na nossa velha máquina de treinar os alunos para o vestibular e para uma carreira, embora não estejam preparados e pouco saibam. Ainda somos "ensinados" pela velha lógica da competitividade e pelas notas, pelo conhecimento técnico, burocrático.
Tudo isso surge quando vemos o caso dessa menina vivendo na realidade miserável do sertão pernambucano. Soma-se a isso o abandono denunciado pelo filme, as ameaças aos professores das escolas, sua falta de condições e preparo, seu medo constante. Os jovens estão muito mais interessados pelo mundo lá fora. Eles vivem em uma realidade cheia de movimento, informações, dinâmica. O mundo da rua contrasta com o velho sistema de ensino, preso ainda a sua decadência e precariedade, o que em nada corresponde à realidade de muitos jovens da periferia das grandes cidades e dos lugares mais pobres. Para eles, a sala de aula chega a ser um lugar de “outro mundo”. Que conhecimento está sendo transmitindo pelas escolas e qual sua função? Que condições têm alunos e professores de aprendizagem e trabalho? São algumas das perguntas urgentes deixadas pelo filme.
O final do filme traz os depoimentos de jovens que não estão na escola e se envolvem com o crime. Afirmam eles que “se os políticos podem roubar, porque nós não podemos?”. O exemplo deveria vir deles, não deveria? "Eles roubam muito mais e não são presos”. Enquanto esta imagem não mudar, dificilmente teremos uma mudança significativa no país das Olimpíadas.

O filme Caché e as páginas menos gloriosas da nação
Toda a sociedade tem um dever com seu passado: ela deve impedir que ele seja irremediavelmete apagado. Esta dívida com o passado não pode subjulgar o presente, nem é certo que todas as lições do passado sejam igualmente recomendáveis. A memória coletiva prefere guardar, no passado da comunidade, dois tipos de situações: aquelas que fomos ou heróis vitoriosos ou vítimas inocentes. As duas permitem legitimar nossas reivindicações presentes. Mas tais situações, que podem ter realmente existido, contribuem mais para nos cegar com relação ao presente do que nos deixar lúcidos. As páginas menos gloriosas de nosso passado seriam as mais instrutivas, se aceitássemos lê-las.
As palavras do autor búlgaro, erradicado na França, Tzvetan Todorov, em seu livro O homem desenraizado, resumem precisamente as questões trazidas por um dos filmes mais interessantes que já vi, chamado Caché. Caché é um filme de 2005, uma produção de quatro países: França, Áustria, Alemanha e Itália. Tem direção e roteiro de Michael Haneke e em seu elenco Daniel Auteuil, Juliette Binoche e Maurice Bénichou. A trama trata sobre uma família atormentada por ameaças que chegam por correio e que sugerem que seu cotidiano está sendo vigiado. Logo percebem que quem os persegue conhece mais sobre o seu passado do que eles poderiam esperar. A descoberta do mistério na verdade é uma viagem ao passado do personagem principal e, antes de tudo, pela memória da França.
O episódio traumático da história francesa ao qual o filme remete é o massacre de mais de 200 argelinos na beira do Rio Sena. Em 17 de Outubro de 1961, durante a Guerra da Argélia, Maurice Papon, um oficial do Governo Francês de Vichy, que colaborou com o Regime Nazista durante a Segunda Guerra Mundial, era Chefe da Polícia de Paris. Depois de uma marcha pacifista, organizada pela "Frente de Libertação Nacional" argelina, centenas de civis argelinos foram mortos pela polícia francesa comandada por Papon. O número exato permanece desconhecido.
O que é interessante no filme Caché é exatamente como ele conta a história. A realização é extremamente ousada, com planos muito pouco usuais e uma narrativa que mantém o suspense. O filme deixa um certo mal-estar que aumenta na medida em que o mistério permanece. É impressionante a significação que o filme traz em cada plano, ao mesmo tempo em que ganha as grandes atuações de Daniel Autuel e de uma das atrizes francesas mais badaladas atualmente, Julliette Binoche.
É por trazer todos esses elementos e por fugir completamente ao esquema de ação de muitos filmes hollywoodianos, que sequer deixam tempo para pensar, que considero Caché fundamental para quem gosta de cinema. O filme traz reflexões interessantes, atuais, e que, embora digam respeito à França, devem ser pensadas por todas as nações.
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