Resolvi colocar também um texto meu sobre retorno, estranhamento. Normal para quem se desloca, vive na condição de estrangeiro.
Isto fez sempre parte da minha história. Idas, retornos.
Novamente estava à beira da praia, lugar em que passou boa parte de sua vida. Tudo, ao mesmo tempo em que lhe parecia familiar, causava-lhe estranheza. O mar estava mais calmo, a areia menos quente, o vento mais brando. Não entendia muito bem o porquê as coisas que lhe pareciam tão naturais antes, agora reparava muito mais detalhadamente. As ondas que tanto o incomodavam e que quase foram motivo de afogamento de muitos conhecidos seus, pela sua intensidade e perigo, agora estavam calmas, e eram comparadas a uma lagoa. A bandeira, que estava sempre presente avisando do perigo das marés, nem lá estava. As pedras, que costeavam as trilhas, programa que costumava encarar como uma grande aventura, pareciam menores e sem nenhum risco. Lembrava-se perfeitamente de quando reunia os parentes para ir pelas pedras e chegar nas trilhas, tarefa feita com todo cuidado em razão da dificuldade, e a impressão era de que qualquer descuido seria fatal. No mesmo caminho que fazia, não reconhecia tal perigo nem de longe. Olhando ao redor da praia, relembrou que, perto das dunas, costumava a participar de batalhas memoráveis nos jogos freqüentes de futebol. Esporte que, aos poucos, foi largando, mas que era o seu preferido. Velhos tempos em que vestia a camisa 10 e marcava um gol por jogo. Essas memórias causaram certo mal-estar. Nem parecia a mesma praia. Nem o quiosque ao qual seus pais costumavam freqüentar durante o fim da tarde para tomar uma cerveja, estava lá. Deixou a praia crente de que o lugar, realmente, não era o mesmo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário