quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

sobre Woody Allen

Woody Allen certamente foi uma das minhas grandes referências desde o tempo em que comecei a estudar e ver mais cinema. Estes dois textos surgiram em momentos diferentes. Um é sobre o livro dele, interessante para quem quer conhecer o trabalho do diretor. Outro, sobre um dos filmes recentes que mais me chamou atenção: Vicky Cristina Barcelona.



Enquanto a música repetia incessantemente “Por que tanto perde-se/Tanto buscar-se/Sem encontra-se?", Woody Allen apresentava seu novo filme diante de um cenário novo para suas produções: Barcelona. O olhar deslumbrado de quem encontra um novo mundo nas arquiteturas de Gaudí é representando pela viagem dessas duas turistas que não conseguem se achar no amor. Mas se tem alguma coisa que Allen achou foi a atriz ideal para interpretar a explosiva e alucinada ex-mulher do protagonista da trama, interpretada por Penélope Cruz. Tanto quanto perdida estava a personagem Vicky, interpretada Rebecca Hall, relutante em admitir sua vontade de largar seu plano racional de casamento perfeito, e sua segurança, por uma aventura com um artista, Juan Antonio, interpretado por Javier Bardem. Entre encontros e desencontros amorosos Allen retoma seu tema preferido: a complexidade das relações.
A antítese de duas amigas que viajam juntas serve como fio condutor da trama: uma sabe o que quer (aparentemente, ou racionalmente), e a outra que só sabe o que não quer (tudo que parece estar em seu controle). Uma delas representa o lugar no qual foge do discurso, o que escapa do sentido da fala. Essa é Vicky, tão estudiosa quanto incapaz de lidar com seus sentimentos, Allen aproveita para fazer sua crítica irônica a intelectualidade por meio dessa personagem. Cristina, pelo contrário, rejeita um destino normal e calculado pretendido por sua amiga, não gosta do controle racional, e fica atraída pelo caráter libertário e talentoso que ela viu em um artista, Juan Antonio. Ele acaba se envolvendo com Vicky, e ambos acabam se interessando um pelo outro, mesmo sem admitir. A frase os opostos se atraem poderia ser aplicada nesse caso, entretanto a ironia está aí: segura com seu casamento com um nerd executivo, ela reluta em dizer que sente atração por tudo que ela rejeita. O mais simbólico é que ela estuda Identidade Catalã, e acaba se envolvendo com um artista de Barcelona.
Cristina é o desejo em sua eterna busca, insatisfeito. Envolvida com Juan Antonio, ela parece ter encontrado seu par ideal. Mas perfeição é o que Allen desmonta. Tudo começa com a chegada da frenética e temperamental ex-mulher de Juan Antonio, interpretada por Penélope Cruz.
Não é o melhor nem o pior filme de Woody, mas carrega a marca de seus temas e, mesmo que acanhado e diferente, seu humor. A produção representa uma fase européia de Allen, tão acostumado a atmosfera cinzenta de Nova York. Agora resta saber ela vai continuar, como ele sempre trata: no drama ou na comédia.

Publicado na revista online Paradoxo


Em busca da perfeição

Livro Conversas com Woody Allen mostra o diretor em sua intensidade criativa, autocrítico e obcecado por suas criações.

Aos 73 anos, Woody Allen apresenta uma extensa filmografia – lança praticamente um filme por ano – e certamente é um dos grandes diretores de cinema em atividade. Não bastasse a consagração cinematográfica, tornou-se sensação editorial: sua trajetória foi retratada de forma abrangente e repleta de nuances no recente título do jornalista Eric Lax, Conversas com Woody Allen. A obra reúne entrevistas concedidas pelo cineasta durante 36 anos – desde que Lax foi designado para traçar o perfil de um ainda “jovem comediante” de New York, no início da década de 70. O livro mostra um Woody centrado, obsessivo por suas criações, extremamente autocrítico e alheio ao sucesso.
“Quando vejo os filmes do Bergman pergunto o que estou fazendo aqui”. Inconformado, Woody Allen sempre se comparou ao diretor sueco, em atitude que resume sua intensa cobrança criativa. “Não sou cínico, estou longe ser um artista. Sou um sortudo viciado em trabalho”, define o diretor.
Conversas com Woody Allen demonstra a variedade das produções do cineasta e traça um amplo panorama de seus pensamentos em vários momentos da carreira. Um retrato do diretor em sua intensidade criativa, falando sobre temas como paixões, musas, família, trilhas sonoras etc. Nos depoimentos, nota-se o quanto Woody exagera nas críticas ao seu trabalho. Um perfeccionismo que o cineasta alega ser realismo. Além disso, a reclusão e a discrição de Woody não costumam ser bem vistas - nunca ligou para o sucesso ou para a fama, não gosta de aparecer em festas e premiações. O que muitos interpretam como arrogância ou desdém, no entanto, o cineasta diz ser timidez.
Um dos pontos mais interessantes no livro é a evolução de Woody, um escritor que passou por diversas fases criativas. Começou no cinema mais como comediante do que diretor, com filmes que eram seqüências de piadas em esquetes rápidas, sem trama definida. Foi se aperfeiçoando e chegou a ganhar o Oscar com Noivo Neurótico, Noiva Nervosa [1977], contracenado com sua ex-mulher, Diane Keaton. A produção representou um avanço na carreira, que mais tarde teve sucessos como Manhattan [1977] e Crimes e Pecados [1989]. Uma terceira mudança viria em Match Point [2005]. Segundo o cineasta, o filme inaugura uma nova fase, na qual sente mais segurança para fazer drama, coisa que sempre desejou.

_drama ou comédia?
Na leitura de Conversas com Woody Allen nota-se um diretor querendo ser levado a sério. Woody explora sempre o limite entre comédia e drama, mas deixa claro nas entrevistas que prefere o segundo gênero. Tanto é verdade que aponta Match Point [2005] e A rosa púrpura de Cairo [1985] como dois dos seus melhores filmes. Fã declarado do comediante Bob Hope, não nega a importância do humor, embora enfatize a preferência por filmes como Uma Rua Chama Pecado [1951, de Elia Kazan] ou The Iceman Cometh [1973, de John Frankenheimer]. Se a abrangência de Conversas com Woody Allen consegue mergulhar no universo do diretor, reforça excessivamente muitos lugares-comuns, como o fato de ele se achar um ator medíocre e um diretor limitado. Por isso, às vezes, a obra é um pouco repetitiva. Entretanto existem várias curiosidades no livro, como a parte em que Woody fala sobre sua família, ou quando são descritos os processos de seleção do elenco. É por essa abordagem abrangente e pelas peculiaridades que a leitura de Conversas com Woody Allen torna-se interessante, excelente para conhecer as invenções de um diretor criativo como Woody Allen.

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